5 de dezembro de 2016

Comer, beber e amar



Valem-se os dias que acordamos, olhamos para o lado e pensamos: “mais um dia de vida, e eu bem acompanhado. Obrigado!”. Agradecemos a companhia ao amanhecer, quando percebemos que compartilhar nosso tempo com alguém que nos completa vale a pena.

O problema é quando olhamos para o lado e percebemos que podia ter mais espaço na cama para se espalhar, para não ter que pensar como será ao longo do dia, para não buscar assunto com alguém que não se tem assunto faz tempo.

Amar pode ser algo tão prazeroso como um prato delicioso, bem elaborado, com explosão de sabores, assim como um belo vinho, ou aquela bebida refrescante em um dia de calor. Mas amar pode ser o mesmo feijão com arroz do dia a dia, e aquele suco ralo, meio sem gosto, só para não deixar de beber alguma coisa. Portanto, cuidado para que o hábito de amar não se torne algo mecânico na rotina, como o ato de comer e beber.

Seja pela boa companhia, pelo bom papo, pelas risadas frouxas, pela conversa sincera, pelo beijo apaixonado, pelo carinho inesperado, pelas pernas entrelaçadas, pela pipoca compartilhada. Amar com vontade e prazer torna até os dias cinzentos menos borrados. Só não vale deixar morrer...

30 de novembro de 2016

Mais humanidade, por favor



A tragédia com o acidente aéreo na Colômbia, envolvendo o time, comissão técnica da Chapecoense e imprensa, comoveu toda população brasileira. Não só a mídia, mas principalmente nas redes sociais o assunto era só esse.

Realmente é algo assustador, e ficamos abalados por vermos tantas histórias sendo interrompidas.
Mas o que surpreendo também é com a falta de sensibilidade e bom senso de algumas mídias, empresas e até conhecidos que não respeitam o triste momento e nos enche de mensagens sensacionalistas e (pasmem!) piadas de péssimo gosto. O caso dos posts publicados no Facebook do site Catraca Livre foi o primeiro a ganhar repercussão negativa. Graças ao bom senso dos seguidores, que enxurraram a página de comentários contra a posição editorial, o editor se desculpou dos erros cometidos, ao postar conteúdo sobre “dicas para quem tem medo de viajar de avião” e “10 fotos de pessoas em seu último dia de vida”, com fotos dos jogadores dentro do avião. A polêmica foi tratada no site Meio & Mensagem, que ainda apontou a mudança de preço no site Netshoes, com aumento do preço da camisa oficial da Chapecoense, no mesmo dia.

Além disso, muitos internautas também comentaram a já falta de bom senso de pessoas que compartilham em suas redes sociais imagens dos corpos do acidente. Essa prática já não é novidade, e infelizmente a curiosidade macabra de uns acabam prevalecendo, desrespeitando a dor dos familiares e amigos dos envolvidos no acidente.

Para piorar, as piadas já envolvendo o caso de que o avião caiu por falta de combustível, insinuando que políticos e times adversários deveriam viajar na mesma companhia aérea pela qual os jogadores do Chapecoense sofreram o terrível acidente.

Onde está a compaixão? Seja qual for sua relação ou não com os envolvidos no acidente, o que se espera é no mínimo respeito nesse momento tão doloroso.

25 de novembro de 2016

Sob Pressão – O Filme



Um soco no estômago da sociedade. Isso resumo o filme “Sob Pressão” (2016), de Andrucha Waddington, que retrata a triste realidade da saúde pública no País. O cenário é um hospital público localizado em uma comunidade que vive a guerra do tráfico de drogas. Não bastasse a falta de recursos no hospital, a equipe médica vive a difícil tarefa de “escolher” quem será salvo primeiro entre os pacientes: um traficante, um policial e uma criança, todos eles baleados.

A questão é muito maior que a discussão de salvar o “herói” ou o “bandido”, como repercutiu negativamente nas redes sociais. É uma questão de sobrevivência da “medicina de guerra”, como é tratado no filme. Os médicos sofrem pressão de todos os lados, até mesmo entre eles, para saber quem vai atender quem e como, já que falta tudo.

A realidade do País é uma saúde pública sucateada, que não enxerga no médico um profissional e sim um milagroso, que vai tentar salvar vidas com os poucos recursos, com horas seguidas de plantão, em uma rotina estressante e sob pressão. O filme consegue passar essa adrenalina, como se o espectador fizesse parte da equipe médica, sofrendo com tal pressão, mas ao mesmo tempo torcendo para que todos os pacientes sejam socorridos a tempo.

Impossível não se frustrar quando o paciente não resiste e acaba morrendo. Mas também todos são conscientes que não existe milagre. Nem todos têm estomago para assistir a um filme realista, que mostra a verdade dos fatos. Já ouvi dizer “não consigo ver na tela do cinema um filme como esse, quando vivemos em uma cidade tão violenta todos os dias”.

Mas para os “fortes”, recomendo esse longa. Todo elenco está ótimo na interpretação, com destaque do Júlio Andrade, Ícaro Silva, Marjorie Estiano e Andrea Beltrão. O roteiro de Renato Fagundes é fascinante e passa toda tensão “necessárias” para viver o drama que propõe o longa.

Sobre a polêmica de quem salvar primeiro, minha opinião é a mesma que a do médico chefe da equipe, interpretado por Júlio Andrade: deve-se fazer o certo. E naquele caso, o certo era salvar o traficante, ao invés do policial. Não é questão de ser o bandido e o policial. A questão ética é qual o estado de saúde mais crítico, independente de quem seja. O que acontece, numa sociedade como a nossa, é achar que o “certo” é salvar quem teoricamente nos defende e “deixar morrer” aquele que supostamente nos mataria. O médico não fez juramento para salvar quem “merece ou não” viver.

O que a sociedade deveria lutar para que esse médico não viva seu drama diário de ter que escolher sobre qual vida socorrer primeiro.