24 de agosto de 2011

Letra sem pé nem cabeça

Antes de ler o texto original:


Quando escrevi o texto abaixo (em agosto de 2011), não tive a intenção de debochar das letras musicais de autores nacionais. Recebi algumas (pesadas) críticas por ter feito comentários irônicos sobre certas letras que, ao primeiro "ouvido", soam um tanto engraçadas, mas que exigem uma interpretação mais aguçada da mensagem simbólica da canção.

É o caso da letra “Feira Moderna”. Algumas pessoas comentaram duas possíveis interpretações para os versos dessa canção, e que achei bem interessantes. Já outros preferiram questionar meus conhecimentos filosóficos e simplesmente me xingaram por escrever bobagens, antes de procurar me informar melhor.

De toda forma, sabemos que o espaço web é livre para publicação de textos, seja de caráter duvidoso ou de fontes confiáveis, seja com bases teóricas e acadêmicas, ou simplesmente por curiosos e admiradores. Se houvesse uma preocupação minha em tentar me aprofundar sobre o assunto, certamente não teria escrito de forma despretensiosa e descontraída esse texto. Por isso, respeito os diferentes comentários que recebo, mas não entendo tamanha acidez de alguns deles. Estamos livres para argumentar, comentar, brincar e até questionar o por quê dessas letras “sem pé nem cabeça”.

Boa leitura.


Texto Original:

Deve ser curioso o processo de criação de uma letra musical. Acredito que muitos dos grandes compositores seguem suas inspirações, intuições na hora de escrever uma música. Há letras tão profundas, com duplo sentido, que exigem uma interpretação mais apurada, o que nos faz apreciar ainda mais. Chico Buarque é mestre nisso em seus clássicos Cálice, O meu guri e Construção.

Mas às vezes, fico impressionado com as pérolas da nossa “Música Popular Brasileira”. Parecem sopas de letrinhas, uma brincadeira de criança em reunir numa sequência sem lógica, com palavras soltas, sem sentido.


Reza a lenda que Djavan foi sacando palavra por palavra de um grande saco mágico e daí surgiu o clássico “Açaí”. Brincadeira à parte, não tem como interpretar o sentido de uma letra que consegue ter como refrão: “Açaí, guardiã / Zum de besouro um imã / Branca é a tez da manhã”. Sem dizer que não dá para responder o que é um “místico clã de sereia”...

Cheia de talento e uma voz possante, Ana Carolina também inventa letras doidas que fazem o maior sucesso. Numa alucinação, ela consegue trancar a porta, mas pula a janela e não sabe dizer se tá trancada aqui dentro, se tá trancada lá fora. No final, ela resolve dizer que se tranca em alguém e deixa as portas abertas (hã?). O nome da música? Trancado! É muita tarja preta na mente! Vamos aos versos: "Eu pulo as janelas / Será que eu tô trancado aqui dentro? / Será que você tá trancado lá fora? / Será que eu ainda te desoriento? / Será que as perguntas são certas? / Então eu me tranco em você / E deixo as portas abertas".

A musa Marisa Monte é outra que tem um repertório cheio de letras sem pé nem cabeça (isso não quer dizer que eu não gosto dela, entendeu?). Principalmente quando a composição é assinada em parceria com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes. Parece que o famoso tribalista, quando se reúne, é tanta “genialidade”, que eles não conseguem canalizar tamanha inteligência e inspiração. O resultado são versos como: “Pousa-se toda Maria / no varal das 22 fadas nuas lourinhas/ Fostes besouro Maria/ e a aba do Pierrot descosturou na bainha” - oi?

A inspiração para esse post na verdade surgiu enquanto escutava no rádio do carro uma famosa canção de Beto Guedes, regravada pelos Paralamas do Sucesso: “Feira Moderna”. O arranjo instrumental é maravilhoso, mas daí resolvi prestar atenção na letra e escutei: “Feira moderna, convite sensual/ Oh! Telefonista, a palavra já morreu / Meu coração é novo / E eu nem li o jornal / Nesta caverna, o convite é sempre igual / Oh! Telefonista, se a distância já morreu / Indepedência ou morte / Descansa em berço forte / a paz na terra, amém”! Alguém consegue me explicar qual a mensagem dessa música?


Para finalizar em grande estilo, cito o cabeça-pensante (e jornalista!) Chico César que conseguiu emplacar um “SUCESSO” da nossa MPB com “Mama África”, que diz: “a minha mãe é mãe solteira, e tem que fazer mamadeira todo dia, além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia”, seguido de um refrão sem igual: “Deve ser legal, ser negão, Senegal”. Vale lembrar que esse é o mesmo compositor do refrão “Amarazáia zoê, záia, záia / A hin hingá do hanhan... Ohhh! / Amarazáia zoê, záia, záia / A hin hingá do hanhan...” de “À primeira vista”. É muita poesia...

Dizem que arte não têm explicação. Taí a obra do artista plástico Joan Miró para comprovar isso em suas pinturas, mas isso já é papo para outro post.
Lembra de outra pérola da MPB? Então, comenta aí!




18 comentários:

Ju disse...

hahahaha verdade! Açaí?? genthém, como assim, né? Marisa apesar de amar um montão (piada infame) tem várias pérolas dessas!

Danielle disse...

A que eu mais gosto é "Não é proíbido" da Marisa..dá até uma fominha.

Jujuba, bananada, pipoca,
Cocada, queijadinha, sorvete,
Chiclete, sundae de chocolate,

Uh!

Paçoca, mariola, quindim,
E assim vai.

Rafa Cruz e Silva disse...

No 2o. disco do Skank - o "Calango" - tem uma música chamada "Chega disso!" cujo início é:

O bamba quando sai o samba liga o automático/ solidadriedade, caridade, senso prático/ signo de touro tudo que por dentro é ouro/ aflora a batucada na barriga da manhã

railer disse...

nossa, é por aí mesmo, como você comentou, haja tarja preta! hehehe

Abijaudi disse...

Tua cor é o que eles olham, velha chaga (racismo)
Teu sorriso é o que eles temem, medo, medo (não o querem livre, ser humano pleno)
Feira moderna, o convite sensual (tradicional "feria hippie" de Belo Horizonte)
Oh! telefonista, a palavra já morreu (não há poesia, sentimento)
Meu coração é novo (minha tristeza "meu coração é morto", original)
Meu coração é novo (meu sentimento é outro)
E eu nem li o jornal (as notícias só aumentam este sentimento)
Nesta caverna, o convite é sempre igual (conhecer o mundo, se libertar - caverna de Platão)
Oh! telefonista, se a distância já morreu (a modernidade, o telefone acabou com as distâncias)
Independência ou morte(libertação de cada pessoa em todos os sentidos)
Descansa em berço forte (a nação - trechos do Hino Nacional)
a paz na terra, amém (seu desejo à humanidade)

Tamires Silva disse...

Você é muito idiota para fazer esse comentário, no mínimo você deveria ter o conhecimento básico de filosofia. Você se considera mais sábio do que os próprios conpositores, tem que ser muito burro mesmo Mário Cesar.

Tamires Silva

Anônimo disse...

Concordo com a Tamires. O autor do texto já ouviu falar de simbolismo? Surrealismo? Escrita automática? Afinal, é um jeito muito antiquado - e burro -, esse de querer interpretar uma poesia (ou uma canção) apenas pela sua "mensagem" concreta. As palavras por si só, pelo seu som, até pela sua simples presença visual em uma página, já estão cheias de significados.

Katita Breen disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Katita Breen disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Katita Breen disse...

Pra mim ele fala da sociedade moderna mesmo. Começa falando que o racismo e a inveja é o que impera. O modernismo tem um chamado sensual, mas matou a palavra e a distância. Ele remete à figura de feira (misturas) e da telefonista pra expressar isso: tudo está tão perto, à mão, como em nenhuma outra geração, mas falta a ‘palavra’, relacionamentos, calor, união. Ele fala do mesmismo "o meu coração é novo e eu nem li o jornal', ou seja, as notícias nada acrescentam ou podemos interpretar que apesar desse sensual modernismo, que de modernismo nada tem (lembra q ele começa a música falando que a sociedade é a mesma: racista e sem amor, invejosa) ele nada acrescenta. Ele consegue ter um coração novo (idéias) sem precisar do que a sociedade mostra como novo (notícias, acontecimentos, etc.). A caverna (da sociedade que se chama moderna, evoluída) é exatamente isso: uma caverna com um convite igual às gerações anteriores da sociedade. Daí o grito de "independência ou morte!" Ou vc se liberta desse falso modernismo, pois ele não torna as pessoas nem os relacionamentos melhores (lembra que a distância e a palavra já morreu?) ou permanece "descansando nesse berço forte" e viva em paz. Percebo nesse final um certo sarcasmo, já que ele fala o tempo todo contra esse "berço forte". Com certeza ele já fala da ‘globalização’ de uma forma anterior a esse conceito de hoje, mas com certeza também, não imaginava que chegaríamos na geração WhatsApp (vulgo zap-zap) rsrsrssss.....

Alec Saramago disse...

Vai pesquisar de verdade antes de colocar certas bobagens na net meu velho!!! A arte destes caras tem sempre algo a comunicar, mesmo que seja num aparente plano surreal ou jogo de palavras!!! http://massacriticampb.blogspot.com.br/2013/09/a-equacao-da-nacao-e-feira-moderna.html

Anônimo disse...

Discordo da parte sobre o Chico César.
Levando em conta o nome da música (Mama Africa) e o panorama socio-racial brasileiro, é impossível dizer que é uma "letra sem pé nem cabeça".

Não é segredo pra ninguém que os negros, no Brasil, sofrem com o racismo e com a marginalização: Compõe a maior parte dos detentos e moradores de favelas.
Quando escreve "minha mãe é mãe solteira, e tem que fazer mamadeira todo dia, além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia” , refere-se à situação de muitas mulheres negras em grandes cidades. Não é raro identificar essa personagem em São Paulo, por exemplo. Mas como se pode saber que ele fala de negros ? Pelo título da música "Mama Africa" :A figura da mulher, mãe solteira, é simbolicamente a figura da Mãe África. Além disso, Chico César, em outras canções, problematiza a questão negra (Alma Não tem Cor, Clandestino).E aí vem a outra parte da canção “Deve ser legal, ser negão, Senegal” - Um país majoritariamente negro, onde o racismo e opressão não seriam problemas.

Anônimo disse...

Gostei do blog e da postagem. Tem muitas músicas realmente sem sentido (aparentemente), tipo: "[...] Cuidado com o disco voador, tira essa escada daí [...]".
Mas também tem muito "adEvogado" de artista e gente sem senso de humor, pobres coitados! A pior pobreza que pode existir é a cultural. Só tem PhD em antropologia afrodescendente, chega dar até medo de comentar (hahahahaha).

joe disse...

E esta?

Zanzibar (As Cores)
A Cor do Som

O azul de Jezebel no céu de Calcutá, feliz constelação
Reluz no corpo dela, Ai tricolor calar !
Az de Maracatu no azul de Zanzibar
Ali meu coração zumbiu no gozo dela
Ai, mina, aperta a minha mão
Alah, meu only you no azul da estrela !
Aliás, bazar da coisa azul, meu only you
É muito mais que o azul de Zanzibar
Paracuru, o azul da estrela, o azul da estrela

mermø!! 100 % carioca disse...

Prezado Mário,
ao tentar descobrir se havia significado no refrão da música À Primeira Vista - Chico César, encontrei sua postagem e, de tão interessante, resolvi postar minha opinião.

Realmente se formos procurarmos letras que não fazem sentido, conseguiremos montar um blog gigantesco com o material que localizaremos, uma vez que letras são o meio pelo qual se expressam o artista que as compõe e, somente este, é capaz de explicar o que realmente queria dizer com sua letra enigmática.

Já nós, os ouvintes, ficamos apenas com o poder de interpretá-las sobre a ótica do nosso conhecimento, experiências e emoções. Neste caso, não existe certa ou errada, mas sim emoções que foram atingidas ou não pelas palavras entoadas.

Tenho certeza, e duvido que você não concorde comigo, que outras pessoas que já ouviram as letras que citou, as compreenderam e possuem interpretações para elas. E assim te pergunto, elas estão erradas?

Curto muito esta ação de interpretar o que o autor estava querendo dizer com determinada letra de música, tanto que tenho uma amiga muito parceira para tal ação. "Perdemos" horas debatendo interpretações de diversos textos musicados e, normalmente, não chegamos a um consenso. Mas, com certeza, conseguimos abrir nossa forma de pensar para uma ideia que não conseguíamos enxergar até então.

EU mesmo sempre cantei W/Brasil do Benjor e não tinha a menor ideia do intuito daquelas frases aglutinadas e há semanas atrás entendi boa parte delas e como foram se encontrrando. (quem tiver curiosidade por encontrar a resposta aqui: http://lounge.obviousmag.org/culturiar/2015/03/alo-alo-wbrasil.html).

Veja como tudo é uma questão de ponto de vista. As letras do Chico são as que eu curto muito debater, pois nos possibilitam diversas interpretações, sendo Construção uma delas. Porém, a Meu Guri que você citou, eu acho muito óbvia a interpretação dela (o que não quer dizer que eu ache o conjunto letra-música ruim). Acredito que não haja sombra de dúvida que ela é a narrativa de uma mãe, que perdeu seu filho criminoso - menor de idade.

Se refletirmos a ideia de sua postagem para o cinema, o que você diria de Tarantino?

Lembre-se, até diante de um copo com água até sua metade, alguns enxergarão ele meio cheio, enquanto que outros afirmarão que ele está meio vazio. Você pode nem gostar da interpretação do outro, mas tente compreendê-la e este ampliará sua forma de pensar.

Ah, e para quem quiser saber do que trata a Açaí Guardiã, o próprio autor explica aqui:
http://mpbbossa.blogspot.com.br/2012/10/o-que-significa-acai-guardia-zum-de.html

Abraços a todos.

Guga disse...

A letra fala nitidamente sobre o racismo...

Anônimo disse...

como disse Honório Roque: - A Arte não nasceu para questiúnculas.

Unknown disse...

Feira Moderna é uma homenagem a uma amiga do Beto Guedes, morta em um acidente de carro quando ia visitá-lo em Belo Horizonte para conhecer a tal "feira moderna", num feriado de 7 de setembro. Ele tomou conhecimento do acidente só alguns dias depois, por telefone, ao ligar para saber porque ela não tinha aparecido para visitá-lo. Vcs viajam demais. Açaí também tem um significado (ou vários), não são somente palavras soltas. Mas vc certamente nunca entenderia, a não ser que se livrasse do preconceito e adquirisse um pouco mais de Cultura antes de escrever qualquer bobagem.