25 de agosto de 2010

Tudo novo de novo (conto)




A vida já tinha me proporcionado quase tudo. Parece que as emoções transgridem nossos ideais. Não há palavras para decifrar o que estou sentindo neste momento... 
Nasci em uma família pobre. Meus pais vieram buscar por essas terras alguma esperança de sobrevida, já que os tempos de guerra devastavam cidades, empregos e quaisquer sonhos. Então, criaram suas raízes por aqui mesmo, construindo sua própria família a custo de pedras, tropeços e lágrimas. Com toda lástima e desnutrição, éramos felizes com as migalhas que nos restavam. Eu e meus irmãos crescemos acreditando num futuro bom, promissor. Não tínhamos medo nem vergonha de arriscar. Aceitávamos quase todo tipo de trabalho, desde que fosse honesto. Tornei-me um homem adulto por necessidade. Com treze anos já sabia o que era salário, e foi assim que comecei meu pé de meia. Fui um autodidata da vida. Sem ter consciência, aprendi a ser economista, engenheiro, enfermeiro, advogado e empreendedor, mesmo sem diploma de doutor. Juntei um dinheiro, construí minha casa, cuidei de meus pais doentes, defendi minha família na justiça e abri meu pequeno negócio. Depois de 30 anos de casado, perdi minha amada para a mais cruel das doenças. Mal sabia que ali o meu recomeço estava programado. Já era pai de dois homens feitos. Busquei neles o meu consolo, meu renascimento. Sim, porque para mim, já não havia mais vida. Mas esta nos surpreende a cada alvorada.
         A minha maior felicidade era ver minha pequena Maria feliz. E mesmo diante da morte iminente, ela sorria com seus olhos de esperança. Ela acreditava em outra vida. Eu era descrente desse mundo invisível. Dizia-me que a plena felicidade não era deste mundo, por isso, confiava em algo que eu não podia acreditar. Eu estava surdo. Os anos se passaram, e minha dor ainda era imensurável. Mergulhava-me nas profundezas da amargura. Tornei-me um homem mordaz, duro e insensível. Aos subalternos, só lhes restavam os xingamentos e os insultos. Aos mais próximos, a impaciência e o pré-julgamento. Só aos meus filhos, tentava buscar alguma paz.
         Em uma carta, um desconhecido afirmava com toda propriedade que minha pequena Maria havia mandado uma sublime mensagem. Meus princípios não permitiam crer na suposta carta além-túmulo. Seria impossível, pensei. Incrédulo, debochei.
         Outra carta chegou, e esta o recado foi direto:
        
Querido João, não duvide das palavras que lhe envio. Sei que o véu que lhe cobre da verdade ainda lhe impede a compreensão plena. Mesmo assim, descrevo minhas esperanças para que possa encontrar a paz. Trago-lhe boas novas! Muito em breve estaremos juntos novamente. A dádiva da vida terrena me será agraciada, porque assim está escrito. Por isso, meu bem, não se aflige, pois a angústia lhe traz cólera. Beijos de sua pequena Maria.

 O alento veio em códigos, pouco esclarecedores, portanto. As palavras soaram falsas, vagas, sem sentido. Afinal, quem era o calhorda capaz de zombar de minha profunda tristeza e ainda inventar tamanha falácia? Como minha pequena Maria poderia retornar do além-túmulo?
 Por longos dias, mesmo ainda incrédulo, confesso que tal mensagem não saía de minha lembrança, às vezes de forma perturbadora. Até que uma boa nova realmente chegou alegrando o coração desse velho insosso. Meu filho mais velho me daria um neto.
Os sonhos desvendavam encontros entre almas afins. Mensagens subliminares despertavam minha curiosidade. Afinal, será que a carta estava certa? Não importava. Minha felicidade era tamanha com a chegada de meu amável netinho que nenhum assombro mais me assustava.

Estou na sala de espera. A luz de outono brilha como nunca, nos presenteando com um azul celestial límpido. Há tempos não me recordo de uma tarde tão ansiosa como esta. Não consigo esconder meu nervosismo. Ao meu lado, meu filho aguarda seu momento de glória. Será pai pela primeira vez. As horas se arrastam até que finalmente a enfermeira com leve sorriso em seu semblante ressurge no corredor da expectativa. “Nasceu! É uma linda menina”!

3 comentários:

Angélica disse...

Mário, que história linda! Me arrepiei. Lindo mesmo e prova que nos somos pequenos diante de toda a grandeza que existe. Obrigada pelo texto, serviu de ensinamento. =)

Ju disse...

Eu já conhecia ;))

Lindo mesmo, amigo! Parabéns! Vc podia citar que concorreu a um prêmio com ele, né??

beijinhos, ju

O Chandriano disse...

Muito bom!!!!


Abraços