Achei genial essa letra. Se ninguém nunca viu gente assim, ignore, por favor...
Invejoso - Arnaldo Antunes
O carro do vizinho é muito mais possante
e aquela mulher dele é tão interessante
por isso ele parece muito mais potente
Sua casa foi pintada recentemente
E quando encontra o seu colega de trabalho
Só pensa em quanto deve ser o seu salário
Queria ter a secretária do patrão
Mas sua conta bancária já chegou no chão
na hora do almoço vai pra lanchonete
tomar seu copo d'água e comer um croquete
Enquanto imagina aquele restaurante
Aonde os outros devem estar nesse instante
Invejoso
Querer o que é dos outros é o seu gozo
e fica remoendo até o osso
Mas sua fruta só lhe dá caroço
Invejoso
o bem alheio é o seu desgosto
queria um palácio suntuoso
mas acabou no fundo desse poço
Depois você caminha até a academia
sem automóvel e também sem companhia
queria ter o corpo um pouco mais sarado
como aquele rapaz que malha do seu lado
E se envergonha de sua própria namorada
achando que os amigos vão fazer piada
queria uma mulher daquelas da revista
uma aeromoça, uma recepcionista
E quando chega em casa e liga a tevê
vê tanta gente mais feliz do que você
Apaga a luz na cama e antes de dormir
fica pensando o que fazer pra conseguir
o que é dos outros
Querer o que é dos outros é o seu gozo
e fica remoendo até o osso
mas sua fruta só lhe dá caroço
Invejoso
o bem alheio é o seu desgosto
queria um palácio suntuoso
mas acabou no fundo desse poço
Música
30 de março de 2010
29 de março de 2010
Um pouco sobre Chico Xavier
No ano em que completaria 100 anos de vida terrena, buscamos relembrar um pouco da figura doce e amável de Chico. Especial Globo News
Entrevista com Marcel Souto, autor do livro "As vidas de Chico Xavier", que deu origem ao filme.
Estou lendo a tal biografia autorizada por Chico e me surpreendo com algumas passagens de sua vida, algumas retratadas pelo filme. Entre elas, a relação dele com sua família (pai, mãe, tia, madrasta, irmãos) e principalmente com seu mentor espiritual, Emmanuel.
Em uma passagem do livro, depois de ser "surrado" por uma mulher em desespero, Chico, incompreendindo com tal atitude violenta, questiona ao seu companheiro invisível por que deveria relevar e ser ainda mais paciente. Chico teve como resposta:
- Você está com a razão, mas ela está com a necessidade.
Para se acalmar, se lembrou de um dos mandamentos ouvidos de Emmanuel:
- Sua missão é formar livros e leitores. Formar leitores é suportar suas exigências, sem censuras. Formar livros é se esquecer de você.
E foi o que Chico fez até seu desencarne. Viveu em prol dos muitos que o cercavam e necessitavam de sua ajuda. Em 92 anos de vida, ele escreveu mais de 400 livros psicografados, consolou muitas famílias com suas cartas psicografadas por entes mortos, foi alvo de críticas, intimidações e acusações sem fundamentos, mas não se deixou valer porque sabia bem qual era sua missão na terra. Dizia que iria desencarnar no momento certo, quando o Brasil estivesse em festa para assim não chorar sua morte. E não por acaso partiu justamente no dia em que os brasileiros comemoravam o pentacampeonato da Copa do Mundo de 2002.
Leia também:
Matéria com Nelson Xavier, sobre o filme.
Matéria sobre bastidores e curiosidades sobre o filme.
Entrevista com Marcel Souto, autor do livro "As vidas de Chico Xavier", que deu origem ao filme.
Estou lendo a tal biografia autorizada por Chico e me surpreendo com algumas passagens de sua vida, algumas retratadas pelo filme. Entre elas, a relação dele com sua família (pai, mãe, tia, madrasta, irmãos) e principalmente com seu mentor espiritual, Emmanuel.
Em uma passagem do livro, depois de ser "surrado" por uma mulher em desespero, Chico, incompreendindo com tal atitude violenta, questiona ao seu companheiro invisível por que deveria relevar e ser ainda mais paciente. Chico teve como resposta:
- Você está com a razão, mas ela está com a necessidade.
Para se acalmar, se lembrou de um dos mandamentos ouvidos de Emmanuel:
- Sua missão é formar livros e leitores. Formar leitores é suportar suas exigências, sem censuras. Formar livros é se esquecer de você.
E foi o que Chico fez até seu desencarne. Viveu em prol dos muitos que o cercavam e necessitavam de sua ajuda. Em 92 anos de vida, ele escreveu mais de 400 livros psicografados, consolou muitas famílias com suas cartas psicografadas por entes mortos, foi alvo de críticas, intimidações e acusações sem fundamentos, mas não se deixou valer porque sabia bem qual era sua missão na terra. Dizia que iria desencarnar no momento certo, quando o Brasil estivesse em festa para assim não chorar sua morte. E não por acaso partiu justamente no dia em que os brasileiros comemoravam o pentacampeonato da Copa do Mundo de 2002.
Leia também:
Matéria com Nelson Xavier, sobre o filme.
Matéria sobre bastidores e curiosidades sobre o filme.
28 de março de 2010
Cafuné
Encosto minha cabeça em suas coxas
Fecho os olhos e sinto um dedilhar diferenteDelicadamente, seus dedos finos tocam meus breves pelos.
Por serem ralos e finos
Os fios leves se entorpecem com seus movimentos
Estou entregue aos seus caprichos.
Como se catasse piolho
Seus dedos procuram algo em meus cabelos perdidos
Construindo caminhos sinuosos
Em ziguezague.
Que horas são?
Acabo perdendo o tempo
Quando estou em estado de graçaBrigo com o sono
Para não perder o fio da meada
Suave é o balançar de seus dedos
Em minha cabeça desnorteada
Coça com indicador minha nuca
Desliza os fios atrás da orelha
Muda o lado do penteado
Implica com o roda-moinho
Que insiste desarrumar o cabelo.
O que seria de mim sem seu cafuné?
Sou capaz de trocar seus afagos por um
Antes ou depois do café.
Quando o sono for inevitável
Lembre-se que depois irei cobrar mais
Não dispenso esse carinho amável
E por favor, faça sem reclamar
Pois logo depois...
Saberei bem lhe recompensar.
27 de março de 2010
Entrelaçados (conto)
Parte I
Parte II
Parte III
A falta de oxigênio no cérebro ocasionou uma série de complicações no quadro de saúde do rapaz. Seu estado era grave e inspirava cuidados especiais. Logo, os médicos decidiram induzi-lo ao coma, para melhor controlar a situação.
Nessa hora, toda a família já se esbarrava pelos corredores apertados do hospital público. O encontro foi inevitável naquela data especial. Era aniversário do caçula e, depois de alguns meses afastados, os dois se encaravam, cada um com sua angústia e tristeza, a espera de uma resposta positiva dos médicos.
“Precisamos confiar em Deus. Só ele pode salvar nosso filho”, mentalizava a mãe. “Deus quis que o destino nos unisse nesse momento, em prol de nossa família”, refletiu o pai.
Sem trocar uma única palavra, eles ainda se entreolhavam, com olhos de peixe morto, com a dor de uma iminente perda do filho querido. O sofrimento era tão grande que qualquer sentimento de ódio e rancor era deixado de lado naquele momento. Não havia espaço para lamentos conjugais. Os outros dois filhos, irmãos do rapaz, também estavam presentes e a mesma distância que separava pai e mãe era percebida entre pai e filhos.
Já anoitecia, quando o médico veio trazer o boletim: “pai e mãe, precisamos conversar, me acompanhem, por favor”. Então, os dois seguiram o médico, cabisbaixos e sem expressar qualquer reação diante do outro, apenas aguardavam com apreensão os dizeres do médico.
“Infelizmente, seu filho sofreu uma paralisia cerebral devido à falta de oxigênio no cérebro, pelo longo tempo que permaneceu embaixo d´água. No momento, não podemos definir agora quais as possíveis sequelas desse acidente, mas já podemos alertar aos senhores que o caso é grave e exige cuidados especiais. Por isso, peço a compreensão dos senhores para entender como deverão proceder a partir de hoje...”
No discurso, o médico enfatizou a importância do cuidado e do amparo dos pais para a recuperação do filho. O amor dos dois certamente seria o melhor remédio e somente juntos poderiam reunir forças para suportar tamanha aprovação.
Naquela praia, naquele dia, naquela onda, ele não imaginava como sua vida iria se transformar. Talvez o acidente tivesse sido apenas um elo para reaproximar novamente os pedaços daquela família. Talvez eles não tivessem preparados para voltar a conviver juntos outra vez. Mas certamente, pais e filhos estavam dispostos a rever seus julgamentos e suas dívidas. Os que erraram, tiveram a oportunidade de progredir, os que sofreram, tiveram a chance de perdoar.
Mas era preciso acontecer uma fatalidade para apaziguar os corações? Será que apenas o sofrimento é capaz de ensinar o verdadeiro valor da vida? O tal rapaz de alguma forma conseguiu se recuperar e está escrevendo seu testemunho em um livro. Quem sabe ele consegue responder a essas perguntas até o final de seus registros?
Parte II
Parte III
A falta de oxigênio no cérebro ocasionou uma série de complicações no quadro de saúde do rapaz. Seu estado era grave e inspirava cuidados especiais. Logo, os médicos decidiram induzi-lo ao coma, para melhor controlar a situação.
Nessa hora, toda a família já se esbarrava pelos corredores apertados do hospital público. O encontro foi inevitável naquela data especial. Era aniversário do caçula e, depois de alguns meses afastados, os dois se encaravam, cada um com sua angústia e tristeza, a espera de uma resposta positiva dos médicos.
“Precisamos confiar em Deus. Só ele pode salvar nosso filho”, mentalizava a mãe. “Deus quis que o destino nos unisse nesse momento, em prol de nossa família”, refletiu o pai.
Sem trocar uma única palavra, eles ainda se entreolhavam, com olhos de peixe morto, com a dor de uma iminente perda do filho querido. O sofrimento era tão grande que qualquer sentimento de ódio e rancor era deixado de lado naquele momento. Não havia espaço para lamentos conjugais. Os outros dois filhos, irmãos do rapaz, também estavam presentes e a mesma distância que separava pai e mãe era percebida entre pai e filhos.
Já anoitecia, quando o médico veio trazer o boletim: “pai e mãe, precisamos conversar, me acompanhem, por favor”. Então, os dois seguiram o médico, cabisbaixos e sem expressar qualquer reação diante do outro, apenas aguardavam com apreensão os dizeres do médico.
“Infelizmente, seu filho sofreu uma paralisia cerebral devido à falta de oxigênio no cérebro, pelo longo tempo que permaneceu embaixo d´água. No momento, não podemos definir agora quais as possíveis sequelas desse acidente, mas já podemos alertar aos senhores que o caso é grave e exige cuidados especiais. Por isso, peço a compreensão dos senhores para entender como deverão proceder a partir de hoje...”
No discurso, o médico enfatizou a importância do cuidado e do amparo dos pais para a recuperação do filho. O amor dos dois certamente seria o melhor remédio e somente juntos poderiam reunir forças para suportar tamanha aprovação.
Naquela praia, naquele dia, naquela onda, ele não imaginava como sua vida iria se transformar. Talvez o acidente tivesse sido apenas um elo para reaproximar novamente os pedaços daquela família. Talvez eles não tivessem preparados para voltar a conviver juntos outra vez. Mas certamente, pais e filhos estavam dispostos a rever seus julgamentos e suas dívidas. Os que erraram, tiveram a oportunidade de progredir, os que sofreram, tiveram a chance de perdoar.
Mas era preciso acontecer uma fatalidade para apaziguar os corações? Será que apenas o sofrimento é capaz de ensinar o verdadeiro valor da vida? O tal rapaz de alguma forma conseguiu se recuperar e está escrevendo seu testemunho em um livro. Quem sabe ele consegue responder a essas perguntas até o final de seus registros?
26 de março de 2010
Entrelaçados (conto)
Parte I
Parte II
Desde a separação conturbada de seus pais, ele não fala com seu pai. Julgava seu genitor um homem egoísta e interesseiro, e depois de sérias discussões, ele e seus dois irmãos deixaram de se comunicar com o pai.
Ironicamente, no novo aparelho de celular, ele havia gravado todos os nomes e respectivos números, incluindo de seus parentes mais próximos, sem identificá-los como tal. Com exceção de um: seu pai. Na verdade, ele preferiu não identificar os números salvos com apelidos ou qualquer nome conhecido porque acreditava que, por medida de segurança, em caso de roubo ou perda, ninguém saberia o contato de sua mãe, irmãos, namorada etc. Mas ele se esqueceu de trocar um nome e deixou o contato “pai” na memória do aparelho.
A tal senhora, ao buscar algum nome conhecido na agenda do celular, só conseguiu identificar justamente o número do pai do rapaz, e prontamente fez a ligação.
Em princípio, o pai desconfiou da ligação, pensando que se tratasse de um trote. Mas logo percebeu que era possível seu filho estar na praia naquele local.
Já acordado, porém atordoado com a situação, o rapaz fragilizado não soube responder as primeiras perguntas “quem sou eu, onde estou, quem são meus pais etc”. Mesmo apreensivo, deixou ser levado em ambulância para um hospital mais próximo. E a tal senhora preferiu então acompanhá-lo, para tentar ajudar no contato da família.
A senhora ainda atendeu outras ligações, e sem saber o que dizer direito, apenas avisava que o rapaz estava impossibilitado em falar. Alguns estranharam a tal voz no telefone, outros disseram que ligavam mais tarde. Entre uma ligação e outra, a mãe ligou preocupada com a demora do filho.
“Quem está falando?”, indagou a mãe amedrontada. Depois de alguns segundos, a informação foi dada para o desespero da mãe já desolada. A corrida pela busca de informações mais precisas fez a genitora esquecer da frase seguinte dita pela senhora no telefone “consegui avisar ao pai dele também”.
No hospital público, a ambulância já havia estacionado, e o rapaz direcionado à sala de emergência, acompanhado dos paramédicos.
Por ordem do destino, os genitores chegaram no local ao mesmo instante, protagonizando uma cena de desespero e compaixão. “Cadê meu filho?”, indagou o pai. “O que você está fazendo aqui?”, perguntou a mãe.
Parte II
Desde a separação conturbada de seus pais, ele não fala com seu pai. Julgava seu genitor um homem egoísta e interesseiro, e depois de sérias discussões, ele e seus dois irmãos deixaram de se comunicar com o pai.
Ironicamente, no novo aparelho de celular, ele havia gravado todos os nomes e respectivos números, incluindo de seus parentes mais próximos, sem identificá-los como tal. Com exceção de um: seu pai. Na verdade, ele preferiu não identificar os números salvos com apelidos ou qualquer nome conhecido porque acreditava que, por medida de segurança, em caso de roubo ou perda, ninguém saberia o contato de sua mãe, irmãos, namorada etc. Mas ele se esqueceu de trocar um nome e deixou o contato “pai” na memória do aparelho.
A tal senhora, ao buscar algum nome conhecido na agenda do celular, só conseguiu identificar justamente o número do pai do rapaz, e prontamente fez a ligação.
Em princípio, o pai desconfiou da ligação, pensando que se tratasse de um trote. Mas logo percebeu que era possível seu filho estar na praia naquele local.
Já acordado, porém atordoado com a situação, o rapaz fragilizado não soube responder as primeiras perguntas “quem sou eu, onde estou, quem são meus pais etc”. Mesmo apreensivo, deixou ser levado em ambulância para um hospital mais próximo. E a tal senhora preferiu então acompanhá-lo, para tentar ajudar no contato da família.
A senhora ainda atendeu outras ligações, e sem saber o que dizer direito, apenas avisava que o rapaz estava impossibilitado em falar. Alguns estranharam a tal voz no telefone, outros disseram que ligavam mais tarde. Entre uma ligação e outra, a mãe ligou preocupada com a demora do filho.
“Quem está falando?”, indagou a mãe amedrontada. Depois de alguns segundos, a informação foi dada para o desespero da mãe já desolada. A corrida pela busca de informações mais precisas fez a genitora esquecer da frase seguinte dita pela senhora no telefone “consegui avisar ao pai dele também”.
No hospital público, a ambulância já havia estacionado, e o rapaz direcionado à sala de emergência, acompanhado dos paramédicos.
Por ordem do destino, os genitores chegaram no local ao mesmo instante, protagonizando uma cena de desespero e compaixão. “Cadê meu filho?”, indagou o pai. “O que você está fazendo aqui?”, perguntou a mãe.
24 de março de 2010
Entrelaçados (conto)
Parte I
Era aniversário dele, e ele resolveu ir à praia logo cedo. O sábado estava com sol convidativo. O primeiro dia de outono. Aquele calor sufocante do verão já ficara para trás. A brisa suavizava o clima, a areia estava ainda vazia, com uns grupos de turistas americanos maravilhados com o mar de Copa.
Tudo estava calmo naquela manhã. Ele resolveu ir sozinho, com seu mp3 player, uma cadeira de praia, algum trocado para o mate e seu celular para receber as ligações do dia. Preferiu não levar nenhum documento. Estava próximo de sua casa, a poucos metros da praia. Sabia que não iria demorar muito, porque já havia marcado um almoço em família para comemorar seus 28 anos.
Depois de alguns telefonemas, resolveu se esticar na cadeira, escutar uma música dançante enquanto tomava um sol. E este começou a esquentar um pouco, conforme o passar das horas. A brisa já não era constante e os primeiros pingos de suor já lhe incomodavam. Foi então que resolveu dar um mergulho.
Próximo do mar, sentiu a água bater nas canelas, passou as mãos molhadas na nuca e pediu proteção a sua mãe Iemanjá. Sempre foi de admirar o mar antes de entrar. Pisciano típico, encontrava nas águas salgadas um refúgio dos males terrenos, um remédio para o corpo e para alma, onde acreditava-se na purificação e no poder de cura do mar. Não era devoto de nenhum santo, muito menos “batia” cabeça, mas tinha lá suas crenças. Mal sabia o que estava para ser.
Quando entrou definitivamente, mentalizou mais uma vez e agradeceu por mais um ano de vida. Foi nadando para o fundo até ser surpreendido por uma onda grande. Sentiu-se atordoado, nem conseguiu encostar os pés na areia. O cachote foi inevitável, e a mistura de espuma e areia lhe deixou sufocado. Mal conseguiu levantar a cabeça, foi surpreendido por outra onda gigante, que mais uma vez, lhe fez rodopiar embaixo d´água. Não havia tido tempo para buscar ar entre uma onda e outra, e seu fôlego já se esvairia. O desespero não lhe permitia raciocinar e a respiração forçada só lhe fez engolir água. O corpo já não lhe respondia. Ele desfaleceu em pleno mar de Copacabana.
Quando alguns banhistas perceberam aquele corpo moribundo, logo se movimentaram para resgatá-lo. Viam-se os primeiros salva-vidas correndo em direção do mar, tentando burlar o tempo, como se voassem para próximo do corpo. Naquela circunstância, boa parte da extensão da areia já se voltava para o acontecido. E aos poucos já se viam os primeiros socorros, com ele estirado à beira mar.
Uma senhora, que estava próximo aos pertences do rapaz afogado, ao perceber que era o mesmo a quem minutos atrás tinha lhe dirigido a palavra para pedir que tomasse conta de seus objetos enquanto se banhava, não demorou para procurar seus documentos e tentar ajudar na identificação dele.
Não encontrando qualquer documento, percebeu que havia apenas um celular e que neste estava escrito a saudação no display. Ao se aproximar dos salva-vidas com o celular do rapaz, um deles alertou: “por favor, avisem algum parente dele pelo telefone, já que ele está sozinho”.
parte II
Era aniversário dele, e ele resolveu ir à praia logo cedo. O sábado estava com sol convidativo. O primeiro dia de outono. Aquele calor sufocante do verão já ficara para trás. A brisa suavizava o clima, a areia estava ainda vazia, com uns grupos de turistas americanos maravilhados com o mar de Copa.
Tudo estava calmo naquela manhã. Ele resolveu ir sozinho, com seu mp3 player, uma cadeira de praia, algum trocado para o mate e seu celular para receber as ligações do dia. Preferiu não levar nenhum documento. Estava próximo de sua casa, a poucos metros da praia. Sabia que não iria demorar muito, porque já havia marcado um almoço em família para comemorar seus 28 anos.
Depois de alguns telefonemas, resolveu se esticar na cadeira, escutar uma música dançante enquanto tomava um sol. E este começou a esquentar um pouco, conforme o passar das horas. A brisa já não era constante e os primeiros pingos de suor já lhe incomodavam. Foi então que resolveu dar um mergulho.
Próximo do mar, sentiu a água bater nas canelas, passou as mãos molhadas na nuca e pediu proteção a sua mãe Iemanjá. Sempre foi de admirar o mar antes de entrar. Pisciano típico, encontrava nas águas salgadas um refúgio dos males terrenos, um remédio para o corpo e para alma, onde acreditava-se na purificação e no poder de cura do mar. Não era devoto de nenhum santo, muito menos “batia” cabeça, mas tinha lá suas crenças. Mal sabia o que estava para ser.
Quando entrou definitivamente, mentalizou mais uma vez e agradeceu por mais um ano de vida. Foi nadando para o fundo até ser surpreendido por uma onda grande. Sentiu-se atordoado, nem conseguiu encostar os pés na areia. O cachote foi inevitável, e a mistura de espuma e areia lhe deixou sufocado. Mal conseguiu levantar a cabeça, foi surpreendido por outra onda gigante, que mais uma vez, lhe fez rodopiar embaixo d´água. Não havia tido tempo para buscar ar entre uma onda e outra, e seu fôlego já se esvairia. O desespero não lhe permitia raciocinar e a respiração forçada só lhe fez engolir água. O corpo já não lhe respondia. Ele desfaleceu em pleno mar de Copacabana.
Quando alguns banhistas perceberam aquele corpo moribundo, logo se movimentaram para resgatá-lo. Viam-se os primeiros salva-vidas correndo em direção do mar, tentando burlar o tempo, como se voassem para próximo do corpo. Naquela circunstância, boa parte da extensão da areia já se voltava para o acontecido. E aos poucos já se viam os primeiros socorros, com ele estirado à beira mar.
Uma senhora, que estava próximo aos pertences do rapaz afogado, ao perceber que era o mesmo a quem minutos atrás tinha lhe dirigido a palavra para pedir que tomasse conta de seus objetos enquanto se banhava, não demorou para procurar seus documentos e tentar ajudar na identificação dele.
Não encontrando qualquer documento, percebeu que havia apenas um celular e que neste estava escrito a saudação no display. Ao se aproximar dos salva-vidas com o celular do rapaz, um deles alertou: “por favor, avisem algum parente dele pelo telefone, já que ele está sozinho”.
parte II
23 de março de 2010
Eu não enxergo 3D!
Quando assunto é filme 3D, não tenho outra saída a não ser ignorar. Mas quando as pessoas vêm me perguntar se eu assisti Avatar em 3D ou qualquer outra coisa em 3D, eu perco pelo menos meia hora tentando explicar o simples fato de que para mim não existe isso. Eu não enxergo 3D. Parece estranho para muita gente, mas milhares de pessoas como eu – calcula-se que pelo menos 3% da população brasileira – não podem enxergar a “magia do 3D” porque “sofrem” de ambliopia. E qual explicação para isso?
Ao ler uma matéria fantástica no site da Revista Galileu, percebi exatamente o que acontece comigo. Vamos à explicação:
“Essa deficiência acontece quando um dos olhos se desenvolve menos que o outro devido a alguma perturbação. Por exemplo, se um dos olhos tem a visão muito pior que o outro”. Eu sempre enxerguei bem melhor com o olho esquerdo, e aos poucos fui anulando o olho direito (o olho “ruim”). “(...) o cérebro pode ‘desligar’ automaticamente a imagem que vem do olho míope para ficar só com a imagem boa. Com o tempo, o olho que não é usado para de se desenvolver (...)”.
O texto ainda descreve: “muitas outras razões podem fazer com que uma pessoa não veja 3D. Ela pode ter um estrabismo muito forte em um dos olhos, ter catarata ou sofrer de degeneração de um olho só por causa da idade ou até ter olhos desalinhados. Neste último caso, duas coisas podem acontecer: ou a pessoa enxerga duplo ou suprime uma das imagens”. No meu caso, eu desenvolvi o estrabismo desde meus dois anos de idade. E a coisa era tão séria, que aos seis anos de idade, meu oftalmologista da época disse que meu caso era cirúrgico e de emergência, pois poderia ficar cego de uma vista.
O que amenizava o meu problema era o fato de eu enxergar alternando a visão, então, quando eu enxergava com o olho direito, o esquerdo ficava estrábico, a ponto de quase toda córnea entrar (a parte preta do olho), e vice-versa. Bizarro, não? Depois da minha cirurgia, o estrabismo melhorou significativamente e, com o tempo, até estacionou no olho direito (poucas pessoas percebem atualmente que sou estrábico).
Voltando para história do 3D, essa tecnologia depende da visão dos dois olhos para funcionar. Na tela, as imagens destinadas ao olho esquerdo e ao olho direito – que são levemente deslocadas uma da outra – são exibidas simultaneamente. Cada lente dos óculos 3D tem um “filtro”, que faz justamente a separação dessas imagens. Com as duas informações diferentes (das imagens levemente deslocadas) chegando ao mesmo tempo no cérebro, é o que dá a sensação de profundidade.
Daí você pode me perguntar: “você então não enxerga profundidade das coisas na vida real?”. Sim! Segundo a explicação do professor Augusto Paranhos, citado na matéria, o cérebro tem muitas outras “pistas” além da visão de profundidade. “Ele também se baseia no tamanho dos objetos, no ângulo que eles fazem quando você gira a cabeça e até no foco dos objetos que estão mais próximos”, afirma Paranhos.
Por fim, quero deixar claro que nada disso prejudica meu cotidiano, como dirigir, me deslocar normalmente. Quem apresenta a chamada ambliopia, só lamenta o fato de não curtir a experiência do 3D (e a tendência de filmes assim só vai aumentar, inclusive), mas não deixa de viver por causa disso! Fico muito feliz em ler uma matéria como essa, porque assim como eu, muitos vão poder compreender melhor essa patologia rara e buscar, se for necessário, ajuda médica. Fica aqui então a mensagem para os que visitam o blog e conhecem alguém que também não enxerga em 3D (ou fazem parte dos 3% da população como eu!).
Leia também:
Mister Magoo tirou férias (para sempre)
Ao ler uma matéria fantástica no site da Revista Galileu, percebi exatamente o que acontece comigo. Vamos à explicação:
“Essa deficiência acontece quando um dos olhos se desenvolve menos que o outro devido a alguma perturbação. Por exemplo, se um dos olhos tem a visão muito pior que o outro”. Eu sempre enxerguei bem melhor com o olho esquerdo, e aos poucos fui anulando o olho direito (o olho “ruim”). “(...) o cérebro pode ‘desligar’ automaticamente a imagem que vem do olho míope para ficar só com a imagem boa. Com o tempo, o olho que não é usado para de se desenvolver (...)”.
O texto ainda descreve: “muitas outras razões podem fazer com que uma pessoa não veja 3D. Ela pode ter um estrabismo muito forte em um dos olhos, ter catarata ou sofrer de degeneração de um olho só por causa da idade ou até ter olhos desalinhados. Neste último caso, duas coisas podem acontecer: ou a pessoa enxerga duplo ou suprime uma das imagens”. No meu caso, eu desenvolvi o estrabismo desde meus dois anos de idade. E a coisa era tão séria, que aos seis anos de idade, meu oftalmologista da época disse que meu caso era cirúrgico e de emergência, pois poderia ficar cego de uma vista.
O que amenizava o meu problema era o fato de eu enxergar alternando a visão, então, quando eu enxergava com o olho direito, o esquerdo ficava estrábico, a ponto de quase toda córnea entrar (a parte preta do olho), e vice-versa. Bizarro, não? Depois da minha cirurgia, o estrabismo melhorou significativamente e, com o tempo, até estacionou no olho direito (poucas pessoas percebem atualmente que sou estrábico).
Voltando para história do 3D, essa tecnologia depende da visão dos dois olhos para funcionar. Na tela, as imagens destinadas ao olho esquerdo e ao olho direito – que são levemente deslocadas uma da outra – são exibidas simultaneamente. Cada lente dos óculos 3D tem um “filtro”, que faz justamente a separação dessas imagens. Com as duas informações diferentes (das imagens levemente deslocadas) chegando ao mesmo tempo no cérebro, é o que dá a sensação de profundidade.
Daí você pode me perguntar: “você então não enxerga profundidade das coisas na vida real?”. Sim! Segundo a explicação do professor Augusto Paranhos, citado na matéria, o cérebro tem muitas outras “pistas” além da visão de profundidade. “Ele também se baseia no tamanho dos objetos, no ângulo que eles fazem quando você gira a cabeça e até no foco dos objetos que estão mais próximos”, afirma Paranhos.
Por fim, quero deixar claro que nada disso prejudica meu cotidiano, como dirigir, me deslocar normalmente. Quem apresenta a chamada ambliopia, só lamenta o fato de não curtir a experiência do 3D (e a tendência de filmes assim só vai aumentar, inclusive), mas não deixa de viver por causa disso! Fico muito feliz em ler uma matéria como essa, porque assim como eu, muitos vão poder compreender melhor essa patologia rara e buscar, se for necessário, ajuda médica. Fica aqui então a mensagem para os que visitam o blog e conhecem alguém que também não enxerga em 3D (ou fazem parte dos 3% da população como eu!).
Leia também:
Mister Magoo tirou férias (para sempre)
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