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4 de maio de 2012

Dona Rosa e seu paletó de madeira


Triste manhã de domingo aquela para família de Sr. Lorival. Depois de passar algumas semanas entre a vida e a morte no leito de hospital, finalmente sua alma passou para o outro lado, deixando amigos e familiares desolados. Dona Vitória estava inconformada com a partida de seu esposo, assim como seu filho Inácio que tinha no pai um exemplo de hombridade. Ali, na torturante sala de espera daquele hospital sombrio, estavam todos lamentando a partida do patriarca, até seu filho caçula Alberto, que aparentava uma breve embriaguez, como de costume.

Depois da lástima notícia dada pelo médico de plantão, um funcionário da santa casa, responsável pelo necrotério daquele insalubre hospital, vestindo um surrado jaleco acinzentado, veio até a inconformada sala de espera comunicar aos presentes a necessidade de reconhecer o corpo antes da sua liberação. O primogênito encontrava-se tão arrasado, que não teve discernimento para compreender o recado do funesto funcionário. Restou ao coitado Alberto, que ainda inebriado, não se absteve da penosa responsabilidade.

Ao acompanhar o moribundo funcionário em um tenebroso corredor obscuro, Alberto foi sentindo um calafrio horripilante, algo que o lembrava de seu pavor por cadáveres desde a infância. Por um segundo, a sobriedade súbita lhe trouxe um arrependimento pela impensada atitude tomada, ainda na longínqua sala de espera. Mas já era tarde, e aquele cinzento funcionário se encaminhava ao macabro necrotério.

Quando Alberto adentrou a gélida sala branca, encontravam-se ali apenas dois corpos com invólucros panos brancos desbotados. O mecânico funcionário do hospital se dirigiu ao leito esquerdo e, em um hábil movimento, levantou parte da coberta para o rápido reconhecimento. Para acabar logo com aquela torturante tarefa, Alberto, com um olho entreaberto e o outro cerrado, reconheceu agilmente o velho corpo de seu saudoso pai. Tarefa cumprida, Alberto suspirou o ar dos angustiados e voltou em dois tempos para aliviada sala de espera.

Já na pequena capela, amigos e parentes consolavam a inexpressiva viúva, entorpecida por calmantes e chás relaxantes. Outros se debruçavam sobre o caixão, inconformados com a estranha aparência do defunto. Por causa da maldita doença, o inchaço no rosto de Sr. Lorival despertava reações diversas dos presentes. Uns lamentavam a terrível doença, outros questionavam a falta da peculiar pinta de Sr. Lorival no canto esquerdo do pescoço, já outros, tão desolados, nem reparavam as mudanças corporais do recém falecido.

Avançadas horas do interminável velório, dois rapazes entraram apressadamente na singela capela com ares pouco amigáveis. Poucos se atentaram pela presença dos desconhecidos, quando um deles se aproximou do caixão e gritou: “essa aqui é minha mãe!”. Ainda desatentos, alguns se entreolharam espantados com tal afirmação, já outros estranharam tamanha ousadia da invasão seguida de acusação daquele homem.

O outro ainda esbravejou: “vocês roubaram a minha mãe! É ela que está aqui”, apontando para o pobre defunto florido no caixão. Desta vez, o primogênito reagiu, inconformado com tamanha petulância do insultuoso rapaz. “Quem é você para dizer um absurdo desse? Este aqui é meu pai! Não basta estarmos passando por esse momento difícil, você ainda invade o velório desrespeitando a nossa dor e caluniando meu querido pai...”.

O rapaz ainda inconformado retrucou: “Eu estava no hospital procurando o corpo da minha saudosa mãezinha, quando me avisaram que já tinham levado para enterrar. Deixaram o corpo de um velho lá e trouxeram o da minha mãe...”, seu irmão completou: “alguém de vocês reconheceu errado o corpo e trouxe nossa mãe para cá. Eu exijo que retirem o corpo dela desse caixão”. Nesse instante, todos perplexos focaram seus olhares ao único responsável por tamanho absurdo. Mas diante do sumiço de Alberto, todos se perguntaram: “onde está esse bêbado desgraçado?”.

Agora sim estava explicado o sumiço da inesquecível pinta de Sr. Lorival.  Nem a pinta nem Sr. Lorival se encontravam naquele pequeno caixão. A única coisa que pertencia ao falecido era o impecável terno cinza chumbo bizarramente vestido na Dona Rosa, mãe dos alterados rapazes. A questão agora era saber como trocar a roupa da falecida, uma vez que a pobre criatura já se encontrava dura como uma rocha da era paleozóica. Os filhos estavam decididos a retirar todo aparato florido e trocar o elegante terno cinza chumbado pelo deslumbrante vestido florido, especialmente preparado para vestir Dona Rosa em sua despedida. A essa altura, os presentes não conseguiam disfarçar as risadas contidas durante o tumultuado velório.

Inácio, traumatizado, queria terminar logo com a confusão instaurada pelo seu atrapalhado irmão caçula. “Vamos fazer o seguinte: leva esse caixão do jeito que está, e me entreguem o tal vestido da sua saudosa mãe. Vamos enterrar nosso pai com o vestido mesmo e não se fala mais disso. No final, vai tudo para baixo da terra mesmo, pelo menos os dois não vão ser enterrados despidos”.

Enfurecido, um dos rapazes se sentiu afrontado e partiu para ignorância: “Então você acha que eu vou enterrar minha mãezinha vestida de homem? Se você não se importa em embonecar seu pai, que não tem nem o direito de se defender agora, o problema é seu, mas eu não vou permitir um absurdo desse”!

Diante do impasse, os filhos de ambos os defuntos resolveram entrar num acordo. Rasgaram o ilustre terno cinza e improvisaram Dona Rosa com um estampado pano florido em um vestido estilo “tomara que caia”, super adequado para ocasião. Já Sr. Lorival, com sua inseparável pinta, recebeu um outro terno, azul celeste, bem mais apropriado para inusitada despedida.

Caro leitor deve estar se perguntando: “afinal, onde estava Alberto?”

Desnorteado, o bêbado fugiu e, entre um tropeço e outro, saiu perambulando pelas catacumbas no cemitério.


crônica baseada em fatos reais

8 de maio de 2011

As mães de Jú

No aniversário de seis anos, depois de três anos de espera, ela finalmente voltou. Estava decidida levar sua pequena Jú, que havia deixado com sua vizinha quando resolveu abandonar seu lar. Ela só não esperava encontrar Jú sorridente, bonita em seu vestido rodado, comemorando com a nova família seus seis anos. A nova mãe já tinha se preopucado em preparar uma humilde festinha para a mais nova integrante da família de três irmãos.
Todos estavam celebrando os seis anos de Jú e os três de convivência. Triste e desolada, Neusa, a mãe biológica, resolveu ir embora porque percebeu que já havia perdido sua filhinha. A culpa lhe fez voltar depois de tanto tempo para tentar resgatar o passado. Achou que iria reencontrar sua filha triste, saudosa, a sua espera, mesmo depois de três longos e penosos anos. Enganou-se. Neusa, inconsolada, deparou com uma família feliz. O que mais lhe impressionou foi ver sua pequena Jú integrada àquela bela família, que a recebeu como a caçula.
Lídia, a nova mãe, sabia que esse momento poderia acontecer mais cedo ou mais tarde. Na época, Neusa pediu um favor para sua vizinha. “Cuide bem de minha filha, por favor. Preciso encontrar um emprego, uma casa... está difícil viver aqui”. Lídia prontamente recebeu Jú com muito carinho, até sua mãe voltar e buscá-la. Só não sabia que levariam três anos para isso.

A cada ano que passou, Lídia via em Jú uma desesperança de uma mãe que lhe abandonou porque não estava preparada para assumi-la, para ser uma mãe de verdade. Não julgou a falta da vizinha, mas era impossível não se envolver com aquela doce menina. Aos poucos, Jú foi esquecendo sua mãe e enxergou em Lídia sua verdadeira. A mãe que cuidava, que lhe dava carinho, lhe educava, lhe dava o mais importante: o amor materno.
Jú sabia que existia uma mãe no passado, mas seu coração já não tinha dúvidas: sua mãe era Lídia. A criação de Jú, não diferente dos demais filhos, foi ríspida, linha dura. Às vezes, Jú se perguntava se a antiga mãe seria tão dura em certos momentos, mas naquela altura, o que importava? Jú cresceu e, como muitos adolescentes, resolveu enfrentar sua família. Chegou a questionar por que era tão “maltratada” pela mãe? “Será por que você foi obrigada a me adotar? Por que não me devolveu para minha verdadeira mãe?”. Lídia sofria com isso, mas nem por isso deixou de amar sua filha rebelde. A escolha foi feita lá no passado, Jú era sua filha como os outros. Os direitos eram iguais. O amor era o mesmo. Mas a culpa por não ter dado chance a filha escolher entre ela e sua verdadeira mãe lhe fez questionar se agora não era hora de Jú conhecer Neusa.

O encontro foi feito. Jú finalmente, depois de quinze anos, reencontrou sua primeira mãe. O encontro foi estranho. Neusa só se culpava pela ausência mas tentou uma reaproximação, mesmo que de forma tímida. Esse e tantos outros encontros só fez Jú valorizar ainda mais o papel de Lídia em sua vida. Ela foi a mãe que realmente esteve ao seu lado, em todos momentos.
Depois de alguns anos, Neusa adoeceu e, na beira da morte, pediu perdão mais uma vez a sua querida Jú. Seria a última vez que Neusa pedia perdão...

Essa história é baseada em fatos reais. Jú perdoou sua mãe biológica. Mas o perdão veio depois da morte de Neusa.

2 de dezembro de 2010

Conto de Natal – O velhinho do 404


O edifício Lar de São Francisco é um movimentado prédio localizado no caloroso bairro da Tijuca. Lá, moram várias gerações da típica classe média carioca, desde crianças de mães solteiras universitárias até aposentados, funcionários públicos. Entre eles, Sr. José: um coronel reformado que há 40 anos mora no apartamento 404, cuja janela de seu quarto dá de frente para a área de lazer do prédio, vulgo “playground”. Viúvo há dois anos, ele preferiu continuar morando sozinho no amplo apartamento de três quartos, mesmo depois do convite feito por sua filha mais velha para morar em sua casa, num condomínio de alto luxo na Barra da Tijuca.

Sua aposentadoria de militar reformado garante uma vida tranqüila, sem muitas regalias, mas com certo conforto. Sr. José, como todo aposentado tijucano, leva uma rotina pacata, para não dizer chata. Acorda às cinco da manhã, faz sua caminhada matinal em volta do Maracanã, toma seu café amargo, lê o jornal quase completo (ele dispensa a seção de esportes, porque acha uma besteira) e assiste à televisão, praticamente o dia inteiro, só parando para as devidas refeições e a soneca da tarde. Sua rotina muda um pouco quando Sr. José tem de resolver problemas no banco, ou quando há uma consulta marcada no médico da família.

As más línguas dizem que Sr. José é um senhor rabugento, mal humorado e resmungão, que vive reclamando da zoeira que as crianças fazem quando brincam na área de lazer do prédio. Intriga dos vizinhos. Sr. José é apenas um senhor de idade, que tem insônia e, portanto, demora muito para pegar no sono, por conta da gritaria no pátio interno do edifício. Mas segundo ele, nunca incomodou ninguém com suas queixas. Coitado. 

(cont.)

10 de novembro de 2010

O mulato da gafieira (conto)


Mônica era praticamente casada. Vivia um romance há seis anos com um cara bacana, daqueles que fazem amizade fácil. Sentia-se realizada, e só não se casava mesmo, de papel passado, porque não tinha dinheiro para bancar a festa. Ah... a festa! Ela sonhava com uma grande recepção, com banda, jantar e muitos convidados.

Só faltava ela passar para o concurso público, e ele também. Os dois fizeram direito e já estudavam juntos há dois anos. O trato era: quando o primeiro passar na prova, já marcava a data do casamento.

Em meio ao estresse dos estudos, da pressão diária, Mônica resolveu investir seu talento na dança. Ingressou em uma academia no centro da cidade e começou suas aulas na turma de iniciantes, sempre às terças e quintas. Em um ano, ela dançava mais que mulata de escola de samba. Os estudos não foram esquecidos, mas aquele empenho e dedicação de antes foi ficando para trás. Bem diferente de seu namorado, que continuava estudando rigorosamente todos os dias.
 (Cont.)

25 de agosto de 2010

Tudo novo de novo (conto)




A vida já tinha me proporcionado quase tudo. Parece que as emoções transgridem nossos ideais. Não há palavras para decifrar o que estou sentindo neste momento... 
Nasci em uma família pobre. Meus pais vieram buscar por essas terras alguma esperança de sobrevida, já que os tempos de guerra devastavam cidades, empregos e quaisquer sonhos. Então, criaram suas raízes por aqui mesmo, construindo sua própria família a custo de pedras, tropeços e lágrimas. Com toda lástima e desnutrição, éramos felizes com as migalhas que nos restavam. Eu e meus irmãos crescemos acreditando num futuro bom, promissor. Não tínhamos medo nem vergonha de arriscar. Aceitávamos quase todo tipo de trabalho, desde que fosse honesto. Tornei-me um homem adulto por necessidade. Com treze anos já sabia o que era salário, e foi assim que comecei meu pé de meia. Fui um autodidata da vida. Sem ter consciência, aprendi a ser economista, engenheiro, enfermeiro, advogado e empreendedor, mesmo sem diploma de doutor. Juntei um dinheiro, construí minha casa, cuidei de meus pais doentes, defendi minha família na justiça e abri meu pequeno negócio. Depois de 30 anos de casado, perdi minha amada para a mais cruel das doenças. Mal sabia que ali o meu recomeço estava programado. Já era pai de dois homens feitos. Busquei neles o meu consolo, meu renascimento. Sim, porque para mim, já não havia mais vida. Mas esta nos surpreende a cada alvorada.
         A minha maior felicidade era ver minha pequena Maria feliz. E mesmo diante da morte iminente, ela sorria com seus olhos de esperança. Ela acreditava em outra vida. Eu era descrente desse mundo invisível. Dizia-me que a plena felicidade não era deste mundo, por isso, confiava em algo que eu não podia acreditar. Eu estava surdo. Os anos se passaram, e minha dor ainda era imensurável. Mergulhava-me nas profundezas da amargura. Tornei-me um homem mordaz, duro e insensível. Aos subalternos, só lhes restavam os xingamentos e os insultos. Aos mais próximos, a impaciência e o pré-julgamento. Só aos meus filhos, tentava buscar alguma paz.
         Em uma carta, um desconhecido afirmava com toda propriedade que minha pequena Maria havia mandado uma sublime mensagem. Meus princípios não permitiam crer na suposta carta além-túmulo. Seria impossível, pensei. Incrédulo, debochei.
         Outra carta chegou, e esta o recado foi direto:
        
Querido João, não duvide das palavras que lhe envio. Sei que o véu que lhe cobre da verdade ainda lhe impede a compreensão plena. Mesmo assim, descrevo minhas esperanças para que possa encontrar a paz. Trago-lhe boas novas! Muito em breve estaremos juntos novamente. A dádiva da vida terrena me será agraciada, porque assim está escrito. Por isso, meu bem, não se aflige, pois a angústia lhe traz cólera. Beijos de sua pequena Maria.

 O alento veio em códigos, pouco esclarecedores, portanto. As palavras soaram falsas, vagas, sem sentido. Afinal, quem era o calhorda capaz de zombar de minha profunda tristeza e ainda inventar tamanha falácia? Como minha pequena Maria poderia retornar do além-túmulo?
 Por longos dias, mesmo ainda incrédulo, confesso que tal mensagem não saía de minha lembrança, às vezes de forma perturbadora. Até que uma boa nova realmente chegou alegrando o coração desse velho insosso. Meu filho mais velho me daria um neto.
Os sonhos desvendavam encontros entre almas afins. Mensagens subliminares despertavam minha curiosidade. Afinal, será que a carta estava certa? Não importava. Minha felicidade era tamanha com a chegada de meu amável netinho que nenhum assombro mais me assustava.

Estou na sala de espera. A luz de outono brilha como nunca, nos presenteando com um azul celestial límpido. Há tempos não me recordo de uma tarde tão ansiosa como esta. Não consigo esconder meu nervosismo. Ao meu lado, meu filho aguarda seu momento de glória. Será pai pela primeira vez. As horas se arrastam até que finalmente a enfermeira com leve sorriso em seu semblante ressurge no corredor da expectativa. “Nasceu! É uma linda menina”!

27 de março de 2010

Entrelaçados (conto)

Parte I
Parte II
Parte III

A falta de oxigênio no cérebro ocasionou uma série de complicações no quadro de saúde do rapaz. Seu estado era grave e inspirava cuidados especiais. Logo, os médicos decidiram induzi-lo ao coma, para melhor controlar a situação.

Nessa hora, toda a família já se esbarrava pelos corredores apertados do hospital público. O encontro foi inevitável naquela data especial. Era aniversário do caçula e, depois de alguns meses afastados, os dois se encaravam, cada um com sua angústia e tristeza, a espera de uma resposta positiva dos médicos.

“Precisamos confiar em Deus. Só ele pode salvar nosso filho”, mentalizava a mãe. “Deus quis que o destino nos unisse nesse momento, em prol de nossa família”, refletiu o pai.

Sem trocar uma única palavra, eles ainda se entreolhavam, com olhos de peixe morto, com a dor de uma iminente perda do filho querido. O sofrimento era tão grande que qualquer sentimento de ódio e rancor era deixado de lado naquele momento. Não havia espaço para lamentos conjugais. Os outros dois filhos, irmãos do rapaz, também estavam presentes e a mesma distância que separava pai e mãe era percebida entre pai e filhos.


Já anoitecia, quando o médico veio trazer o boletim: “pai e mãe, precisamos conversar, me acompanhem, por favor”. Então, os dois seguiram o médico, cabisbaixos e sem expressar qualquer reação diante do outro, apenas aguardavam com apreensão os dizeres do médico.


“Infelizmente, seu filho sofreu uma paralisia cerebral devido à falta de oxigênio no cérebro, pelo longo tempo que permaneceu embaixo d´água. No momento, não podemos definir agora quais as possíveis sequelas desse acidente, mas já podemos alertar aos senhores que o caso é grave e exige cuidados especiais. Por isso, peço a compreensão dos senhores para entender como deverão proceder a partir de hoje...”

No discurso, o médico enfatizou a importância do cuidado e do amparo dos pais para a recuperação do filho. O amor dos dois certamente seria o melhor remédio e somente juntos poderiam reunir forças para suportar tamanha aprovação.

Naquela praia, naquele dia, naquela onda, ele não imaginava como sua vida iria se transformar. Talvez o acidente tivesse sido apenas um elo para reaproximar novamente os pedaços daquela família. Talvez eles não tivessem preparados para voltar a conviver juntos outra vez. Mas certamente, pais e filhos estavam dispostos a rever seus julgamentos e suas dívidas. Os que erraram, tiveram a oportunidade de progredir, os que sofreram, tiveram a chance de perdoar.

Mas era preciso acontecer uma fatalidade para apaziguar os corações? Será que apenas o sofrimento é capaz de ensinar o verdadeiro valor da vida? O tal rapaz de alguma forma conseguiu se recuperar e está escrevendo seu testemunho em um livro. Quem sabe ele consegue responder a essas perguntas até o final de seus registros?

26 de março de 2010

Entrelaçados (conto)

Parte I
Parte II

Desde a separação conturbada de seus pais, ele não fala com seu pai. Julgava seu genitor um homem egoísta e interesseiro, e depois de sérias discussões, ele e seus dois irmãos deixaram de se comunicar com o pai.

Ironicamente, no novo aparelho de celular, ele havia gravado todos os nomes e respectivos números, incluindo de seus parentes mais próximos, sem identificá-los como tal. Com exceção de um: seu pai. Na verdade, ele preferiu não identificar os números salvos com apelidos ou qualquer nome conhecido porque acreditava que, por medida de segurança, em caso de roubo ou perda, ninguém saberia o contato de sua mãe, irmãos, namorada etc. Mas ele se esqueceu de trocar um nome e deixou o contato “pai” na memória do aparelho.

A tal senhora, ao buscar algum nome conhecido na agenda do celular, só conseguiu identificar justamente o número do pai do rapaz, e prontamente fez a ligação.
Em princípio, o pai desconfiou da ligação, pensando que se tratasse de um trote. Mas logo percebeu que era possível seu filho estar na praia naquele local.
Já acordado, porém atordoado com a situação, o rapaz fragilizado não soube responder as primeiras perguntas “quem sou eu, onde estou, quem são meus pais etc”. Mesmo apreensivo, deixou ser levado em ambulância para um hospital mais próximo. E a tal senhora preferiu então acompanhá-lo, para tentar ajudar no contato da família.

A senhora ainda atendeu outras ligações, e sem saber o que dizer direito, apenas avisava que o rapaz estava impossibilitado em falar. Alguns estranharam a tal voz no telefone, outros disseram que ligavam mais tarde. Entre uma ligação e outra, a mãe ligou preocupada com a demora do filho.

“Quem está falando?”, indagou a mãe amedrontada. Depois de alguns segundos, a informação foi dada para o desespero da mãe já desolada. A corrida pela busca de informações mais precisas fez a genitora esquecer da frase seguinte dita pela senhora no telefone “consegui avisar ao pai dele também”.

No hospital público, a ambulância já havia estacionado, e o rapaz direcionado à sala de emergência, acompanhado dos paramédicos.

Por ordem do destino, os genitores chegaram no local ao mesmo instante, protagonizando uma cena de desespero e compaixão. “Cadê meu filho?”, indagou o pai. “O que você está fazendo aqui?”, perguntou a mãe.

24 de março de 2010

Entrelaçados (conto)

Parte I

Era aniversário dele, e ele resolveu ir à praia logo cedo. O sábado estava com sol convidativo. O primeiro dia de outono. Aquele calor sufocante do verão já ficara para trás. A brisa suavizava o clima, a areia estava ainda vazia, com uns grupos de turistas americanos maravilhados com o mar de Copa.


Tudo estava calmo naquela manhã. Ele resolveu ir sozinho, com seu mp3 player, uma cadeira de praia, algum trocado para o mate e seu celular para receber as ligações do dia. Preferiu não levar nenhum documento. Estava próximo de sua casa, a poucos metros da praia. Sabia que não iria demorar muito, porque já havia marcado um almoço em família para comemorar seus 28 anos.


Depois de alguns telefonemas, resolveu se esticar na cadeira, escutar uma música dançante enquanto tomava um sol. E este começou a esquentar um pouco, conforme o passar das horas. A brisa já não era constante e os primeiros pingos de suor já lhe incomodavam. Foi então que resolveu dar um mergulho.


Próximo do mar, sentiu a água bater nas canelas, passou as mãos molhadas na nuca e pediu proteção a sua mãe Iemanjá. Sempre foi de admirar o mar antes de entrar. Pisciano típico, encontrava nas águas salgadas um refúgio dos males terrenos, um remédio para o corpo e para alma, onde acreditava-se na purificação e no poder de cura do mar. Não era devoto de nenhum santo, muito menos “batia” cabeça, mas tinha lá suas crenças. Mal sabia o que estava para ser.


Quando entrou definitivamente, mentalizou mais uma vez e agradeceu por mais um ano de vida. Foi nadando para o fundo até ser surpreendido por uma onda grande. Sentiu-se atordoado, nem conseguiu encostar os pés na areia. O cachote foi inevitável, e a mistura de espuma e areia lhe deixou sufocado. Mal conseguiu levantar a cabeça, foi surpreendido por outra onda gigante, que mais uma vez, lhe fez rodopiar embaixo d´água. Não havia tido tempo para buscar ar entre uma onda e outra, e seu fôlego já se esvairia. O desespero não lhe permitia raciocinar e a respiração forçada só lhe fez engolir água. O corpo já não lhe respondia. Ele desfaleceu em pleno mar de Copacabana.


Quando alguns banhistas perceberam aquele corpo moribundo, logo se movimentaram para resgatá-lo. Viam-se os primeiros salva-vidas correndo em direção do mar, tentando burlar o tempo, como se voassem para próximo do corpo. Naquela circunstância, boa parte da extensão da areia já se voltava para o acontecido. E aos poucos já se viam os primeiros socorros, com ele estirado à beira mar.


Uma senhora, que estava próximo aos pertences do rapaz afogado, ao perceber que era o mesmo a quem minutos atrás tinha lhe dirigido a palavra para pedir que tomasse conta de seus objetos enquanto se banhava, não demorou para procurar seus documentos e tentar ajudar na identificação dele.


Não encontrando qualquer documento, percebeu que havia apenas um celular e que neste estava escrito a saudação no display. Ao se aproximar dos salva-vidas com o celular do rapaz, um deles alertou: “por favor, avisem algum parente dele pelo telefone, já que ele está sozinho”.

parte II

2 de fevereiro de 2010

FÉvereiro (Conto)

Parte 1
Parte 2

“Todo dia um ninguém josé acorda já deitado”
Estou perdendo as forças... não quero mais acordar e levantar pra ver o sol.
“Todo dia ainda de pé o zé dorme acordado”
Tenho que trabalhar minha chatice
“Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia”
Estou trocando o dia pela noite, virando acordado.
“Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado”
Estou perdendo a esperança, pra falar a verdade.
“De que o dia insiste em nascer. Mas o dia insiste em nascer”
E se eu deixasse de lado todas frustrações?
”Pra ver deitar o novo”

Acordei hoje um pouco mais disposto.
Bola preta acaba sendo uma recaída.
“Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada”
Beijei umas sete, mas sem compromisso.
"Toda Bossa é nova e você não liga se é usada”
Mas agora acabou mesmo. Prometo.
“Todo o carnaval tem seu fim. Todo o carnaval tem seu fim”
É o meu fim.
“E é o fim, e é o fim”



- Meu amigo não pára de gritar “é carnaval!”
- Não me diga, “mas quem é você?”
Mas essa já é outra letra.
- Esse é o Chico.
- Prazer, meu nome é...

“Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco”
- Você não me é estranha...
“Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco”
- Jura? Então de onde você me conhece?
“Toda escolha é feita por quem acorda já deitado”
- Não sei direito, mas você parece com alguém que estou procurando há tempos.
“Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado”
- Então acha que encontrou?
“E pinta o estandarte de azul”
- Tenho certeza. Vem comigo!
“E põe suas estrelas no azul”
- Pra onde você está me levando?
“Pra que mudar?”
- Deixa...

“Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz”

1 de fevereiro de 2010

FÉvereiro (Conto)

Parte 1
Parte 2

Um dia ela chega. Eu tenho certeza. Não vejo a hora desse dia chegar. Acordo todos os dias pensando nisso. Eu como, corro, viajo, trabalho, durmo e acordo pensando nela. Ainda que eu não saiba quem é exatamente, eu sei que ela existe. Eu sei.

Em um dia perdido de verão, naquele calor quase insuportável de 39 graus, com sensação térmica de 42, eu resolvi partir para bem longe. Peguei uma lancha emprestada com um amigo rico e resolvi me arriscar no mar. Um louco, eu sei. Mas precisava fugir daquele calor infernal do Rio. A minha loucura permitiu chegar até Arraial, quando por um milésimo de segundo imaginei que poderia estar cometendo de fato uma loucura. E se eu passasse mal? E se a pouca comida e bebida acabassem? E se o combustível da lancha chegasse ao fim? Pronto, seria o meu fim! Caramba! Estava eu perdendo totalmente o controle da minha vida... da nossa vida!


Então, desembarquei por ali mesmo. A praia era quase deserta, se não fossem uns poucos pescadores e outros morados de um pequeno vilarejo. Precisava tomar um banho decente. Uma boa ducha daquela de doer as costas. Precisava também comer algo que entupisse meu estômago. Não aguentava mais comer sardinha em lata, milho, palmito e azeitona. Tudo enlatado me enjoava, mais do que qualquer balanço do barco.

Logo que desci encontrei uma pequena pousada bem estilosa. Não tinha muito dinheiro no bolso, mas o suficiente para dormir por uma noite. Dava pra pagar pelo menos uma boa cochilada naquela bela pousada de frente para a praia. Dali, conseguia vigiar minha lancha. Minha não, do meu amigo rico... e louco. Não sei como ele me emprestou. Ou será que eu peguei sem avisá-lo? Confesso que não lembro. Estava bêbado.

Você parecia tão nítida naquela noite. Alta, cabelos longos, soltos, lisos... parecia feliz, com um corpo nem muito malhado, mas nem fora de forma. Do jeito que nós gostávamos. Você vinha sorrindo em minha direção com uma taça na mão. Seu quadril rebolava a cada passo que dava para frente em minha direção. Seus seios, lindos, fartos, acompanhavam o movimento em slow motion, praticamente. E quando parecia que você estava disposta a me pegar... eu acordei. Assustado com o barulho ensurdecedor de uma moto perto da pousada. Era um sonho. Você definitivamente não era real. Ainda não.

Perdi a hora, vi o sol já pronto do lado de fora da varanda. Já tinha passado o horário do café da manhã. Eu precisava voltar pro Rio. Liguei pro meu amigo rico. Falei que voltaria pro Rio de táxi e pedi para alguém vir buscar a lancha. E assim que cheguei ao Rio, lembrei porque saí correndo pro mar. O calor ainda era sufocante. 38,5 marcavam perto do Maracanã, quando passei de táxi.

Mais um convite para trabalhar em Nova Iorque. Mais uma vez tive que recusar. Eu sei que só lá estaria livre do calor do Rio. Mas eu só pensava em você. Não adianta. Não vou perder a oportunidade de lhe conhecer. E se eu fosse para fora agora, eu iria perder mais essa chance. Chega. Não quero mais perder chance nenhuma. A partir de agora você virou minha obsessão. Não penso em outra coisa que não seja lhe conhecer.

Esta noite vai rolar um get together na cobertura do meu amigo rico. O de sempre: mulheres lindas, peitudas e vazias. Não são como você. Daí eu chego lá, tomo várias taças e acabo na cama, com não sei lá quantas... Chega. Cansei dessa vida de hipócritas! Corpos sarados, mentes vazias. Sexo fácil e com prazo de validade vencida!

Mas cadê você? Onde lhe encontrar? Até quando você vai me burlar com suas viagens mirabolantes? Seus distúrbios mentais estão me enlouquecendo. Só lhe vejo atrás dos espelhos... nos retrovisores do carro...
Se eu fosse você, eu mudava de ideia logo. Parava com esse jogo de gato e rato. Me pegava logo, me jogava no chão, me arranhava, me lambia, me chupava...

Eu vou ter que fazer terapia. E é por sua causa, sabia? Você está me obrigando a isso! Nunca precisei de um psicólogo para controlar minha vida. Eu sempre me cuidei muito bem. Mas agora já não sei mais quem eu sou. Perdi o controle de tudo.

A faxineira já me perguntou porque estou fumando cada vez mais. Não sei o que responder... “é a ansiedade, Maria! Maldita da ansiedade”. Não bastava fumar demais, parei de malhar... por sua causa também. Não tenho mais vontade de acordar às 6 da manhã para colocar o corpo em dia. Para quem? Quem sabe criando uma barriga as mulheres param de me dar mole e você finalmente aparece para mim?

Então é isso? Você acha que eu sou galinha, ando com qualquer uma e por isso não lhe mereço? Fala logo isso, que eu paro já! Aliás, eu já parei com essa vida há algum tempo e só você não percebeu isso...

Deixa eu lhe provar que eu sou outra pessoa! Dê-me essa chance!