3 de novembro de 2015

Dois Irmãos – a trilha dos cariocas




Já virou rotina dos cariocas buscar uma trilha bacana para conhecer uma vista diferente da cidade que não cansa de surpreender. Depois de Pedra Bonita, Pedra da Tartaruga, Pedra do Telégrafo, Morro da Urca, Morro da Catacumba, chegou a hora de conhecer uma das trilhas mais badaladas da cidade: Morro Dois Irmãos.

Essa trilha está cada vez mais disputada, principalmente depois que a Comunidade do Vidigal se tornou pacificada. O Morro Dois Irmãos é famoso para quem olha a cidade na direção do Leblon. Chegar ao topo do morro mais alto é enxergar o lado privilegiado da cidade que reúne o morro do Corcovado, o Pão de Açúcar, a Lagoa Rodrigo de Freitas (justamente de frente para o “coração” que se forma), as praias desde o Leme, passando por Copa, Arpoador, Ipanema e Leblon, não esquecendo da Gávea (observando o planetário).


Demorei algum tempo para conseguir fazer a trilha. O primeiro motivo, infelizmente, foi a questão da segurança. Mas depois que a comunidade foi pacificada, muitos turistas passaram a frequentar Vidigal, principalmente por conta da vida noturna. Confesso que fiquei surpreso com tanta gente no topo do morro, inclusive famílias com crianças de colo. O espaço no topo não é tão extenso, o que deixa o lugar bem disputado.


Não é difícil achar o início da trilha. Antes de mais nada, é preciso subir até a Vila Olímpica da Comunidade, o que pode ser feito por transporte local (Kombi ou moto táxi). Na Vila Olímpica, cercada por grade, há uma placa, onde informa o horário de funcionamento (sábado, domingo e feriado: 8h às 18h). Para acessar a trilha, é preciso entrar na vila, portanto, vale a pena ficar ligado nesse horário. O início da trilha é justamente atrás da vila, com um caminho tranquilo e de fácil acesso. Há outra opção de trilha, que não começa pela vila, mas desconheço.

No início da trilha, há uma placa com horário de funcionamento

O nível da trilha é considerado médio. Não é necessário escalar, mas há trechos onde a subida é íngreme e exige um mínimo condicionamento físico. Meu grupo levou em torno de 50 minutos na subida e 30 para descer, com ritmo moderado. Vale levar água e protetor solar. Sempre bom recomendar um calçado apropriado, de preferência tênis, porque há trechos que escorregam, por conta da terra.

Ao longo do percurso, é possível apreciar a vista voltada para São Conrado, com Pedra da Gávea e a Pedra Bonita ao fundo. No primeiro mirante, inclusive, há uma barraca estratégica para quem esqueceu de levar bebida e comida (mas lembrando que não há lixeira na trilha, portanto, importante voltar com o lixo).


Para quem curte passeios que integram beleza natural, visual, atividade física, essa trilha é uma excelente opção tanto aos cariocas quanto aos turistas que querem conhecer muito além do Cristo e Bondinho. E o Rio está sempre surpreendendo, mesmo para quem nasceu e vive nessa cidade.

30 de outubro de 2015

O improviso

Quantas vezes você precisou improvisar na vida?

Às vezes, mal damos conta de quantos somos capazes de improvisar no dia a dia. Das pequenas coisas até as mais complexas.

Improvisamos um lanche, aproveitando o que restou na geladeira de casa. Improvisamos a roupa para um evento de última hora. Improvisamos uma resposta a um convite inesperado. Improvisamos um trabalho quando o prazo está apertado. Improvisamos uma desculpa, quando somos pegos numa mentira. Improvisamos um assunto qualquer, para quebrar o gelo na conversa com um desconhecido. Improvisamos um presente, quando esquecemos o aniversário de alguém importante. Improvisamos um roteiro, quando a viagem não saiu como planejamos. Improvisamos na comunicação, quando não falamos a mesma língua. Improvisamos nas competências, quando somos desafiados profissionalmente. Improvisamos principalmente quando o dinheiro acaba muito antes do final do mês.

Somos testados em todos os sentidos. E mesmo quando nos preparamos para uma certa situação, seja uma entrevista de emprego, seja para uma apresentação de trabalho, seja para uma longa viagem, sempre somos surpreendidos. Ter jogo de cintura, raciocínio rápido, poder de decisão, ser flexível são qualidades que desenvolvemos ou não.

Lembro-me de um exercício muito comum, para quem já fez aula de teatro, que é improvisar a partir de temas que são lançados, durante a interpretação. Um deles, por exemplo, colocava uma ideia polêmica, em que um defendia, enquanto o outro atacava. Logo depois, mudava-se, então, o que defendia passava atacar e vice-versa. Uma verdadeira confusão mental, mas um desafio e tanto.

Particularmente, aprendo todos os dias a arte do improviso. É sempre bom planejar, organizar, estudar, roteirizar, esquematizar, calcular e todos os verbos de controle possíveis. Mas é justamente quando o planejado não dá resultado, quando tudo que você imaginou dá errado, é que você aprende na marra. O tempo entre a frustração (pelo que não deu certo) e a tomada de decisão para virar o jogo às vezes é tão curto, que quando se percebe, você já improvisou e já deu certo no final.

Viver de improviso não é o ideal. Mas se faz necessário, pelo menos enquanto não há outra saída. É a velha história: "se você tem um limão, faça disso uma boa limonada". O palhaço pode ter a piada pronta, mas se a criança não rir, alguma coisa estava errada, e só lhe resta... improvisar. Até fazer a criança rir.

Quantas vezes você não foi o palhaço e seu chefe a criança?





 

27 de outubro de 2015

Trilha do Morro da Urca




Para quem visita o Rio de Janeiro, é praticamente obrigatório conhecer o famoso Pão de Açúcar, um dos principais pontos turísticos da cidade. Hoje, o bondinho completa 103 anos, tendo passado por algumas modernizações ao longo desse período. Hoje o bondinho tem capacidade para transportar até 65 pessoas de uma única vez, mas para quem conheceu o primeiro bondinho, feito de madeira, imagina o quanto eram corajosos os que subiam até o topo.


Mas que tal conhecer o lugar sem precisar subir de bondinho? Além de ser um passeio gratuito, o visitante tem a oportunidade de conhecer uma das trilhas mais legais que o Rio oferece.
Considerada leve (para quem já pratica essa atividade), a trilha do Morro da Urca começa na Pista Claudio Coutinho, que fica no canto esquerdo da Praia Vermelha. Há sinalização tanto para acessar a pista, quanto no início da trilha. Apesar de fácil, vale lembrar que há trechos íngremes, mas não exige qualquer tipo de equipamentos de escaladas. Uma caminhada tranquila de 30 a 40 minutos, e o visitante já tem a oportunidade de chegar ao alto do Morro da Urca.


Antigamente, quem subia pela trilha tinha o direito de descer o bondinho até a estação na Urca, depois das 19h. Mas agora isso só é permitido durante a semana, sem ser feriado. Portanto, programa-se para descer a trilha antes do acesso ser fechado (a pista Claudio Coutinho funciona até as 18h). Outro detalhe que não há vendas de bilhetes lá em cima, portanto, mesmo se quiser comprar depois não há chance!

Mas o que vale nesse passeio é justamente o prazer de fazer a trilha, tento a oportunidade de parar em alguns trechos para apreciar a vista, durante a caminhada.

22 de setembro de 2015

Que horas ela volta? O Filme



Tratar a desigualdade social de forma tão familiar, próxima à realidade da classe média, pode impressionar mais que as cenas que enxergamos todos os dias nas ruas das cidades. Por que? Talvez porque serve muitas vezes de espelho, para aquilo que presenciamos se não em nossa própria casa, pelo menos na casa de alguém conhecido. 

A história contada no filme “Que horas ela volta?”, que traz uma excelente interpretação de Regina Casé no papel de Val, é a velha relação de patrão e empregada. Na verdade, são muitas histórias dentro de uma. Ali é possível ver a real relação de uma dondoca patroa que acredita ser uma excelente empregadora, um filho adolescente que demonstra seu afeto àquela que de fato o criou e educou, e o patrão que revela suas paixões e deslizes diante da filha da empregada. Além, é claro, a relação da empregada com aquela família que a recebeu e por quem tem grande respeito.

A rotina muda com a chegada da filha da Val à cidade de São Paulo, depois de 13 anos longe da mãe. A filha não entende aquela relação entre patrão e empregada, o que torna o filme ainda mais interessante. “Ela é praticamente da família, está conosco há tantos anos”, mas é justamente esse “praticamente” que faz toda a diferença. No final das contas, o que vale é a máxima “cada macaco no seu galho”. Ou seja, “se o patrão lhe oferecer aquele melhor sorvete da geladeira, é apenas por educação, porque ele tem a certeza que você dirá não”. Existe um protocolo velado.

E nessa relação, a desigualdade é escamoteada nas pequenas atitudes, nas cobranças, no olhar de reprovação, no descaso e até na inveja quando a filha da empregada passa no vestibular para uma universidade pública e o filho da patroa, que teve todas as oportunidades possíveis, nem chegou perto da classificação.

É um filme engraçado, leve, cheia de tiradas inteligentes, mas vale mesmo pela reflexão. Se por um lado, as empregadas domésticas vêm conquistando seus direitos nas leis trabalhistas, por outro, falta respeito e verdadeiro reconhecimento por parte dos patrões. De fato, há ótimas histórias com finais felizes, mas há também muitos conflitos nesses relacionamentos.

14 de agosto de 2015

Criadores de heróis



Não sou especialista em teorias da comunicação, mas não precisa ser um profundo conhecedor de teorias para pensar sobre o papel das grandes mídias na sociedade. A questão é: até que ponto aquilo que a comunicação de massa define como importante realmente influencia a opinião pública? Quem constrói os heróis nacionais?

A questão já foi exaustivamente debatida, uns com olhares negativos, outros positivos. Muitos, hoje, acreditam que, com avanço das tecnologias e a influência das mídias sociais, não há espaço para grande mídia determinar o que é relevante, enquanto o público apenas consome, sem reagir. Todo mundo informa, todo mundo recebe, todo mundo responde. Todos para todos.

Entretanto, muitos devem ter se perguntado: por que a mídia deu tanta divulgação, com extensa cobertura sobre a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo? Para muitos, ele passou ser conhecido apenas após sua morte. Isso gerou até polêmica sobre a crônica de Zeca Camargo chamando atenção sobre a comoção nacional diante do fato. Ele termina a crônica contradizendo a letra de Tina Turner “We don´t need another hero”. Mas quem cria nossos heróis?

Duas lembranças fortes que tenho da minha infância foram as mortes de Ayrton Senna e dos integrantes do grupo Mamonas Assassinas. Lembro da repercussão midiática de ambas as tragédias. Foi realmente uma comoção nacional. Eu, ainda criança, chorei como se o piloto fosse um ente próximo, familiar. A mídia me proporcionou isso. Ela permitiu que eu e milhares de brasileiros nos tornássemos próximos ao ídolo, ao herói Ayrton Senna. Até quem não acompanhava as corridas de Fórmula 1, nas manhãs de domingo, nem era fã do piloto se comoveu com a morte estúpida dele. Nunca antes daquele momento midiático se escutou tanto a música “Canção da América” de Milton Nascimento, quando a letra dizia “Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito”. É como se milhares de brasileiros estivessem se despedindo de um amigo de fato.

Não menosprezando a morte de ninguém, muito menos dos sentimentos daquelas pessoas próximas aos que morreram, mas por que a mídia, de forma geral, adota esse tipo de ação? Apenas por audiência?
Muitos irão defender a ideia que independe da ação da mídia para alguém escolher seu ídolo. Afinal, somos livres para gostar de alguém que se destaca pelos seus atos, por sua profissão, por sua trajetória etc. Portanto, quando esse ídolo morre, é natural que seus fãs se manifestem, lamentem por isso. E a mídia estaria apenas repercutindo essa reação do público.

Uma das personalidades mais respeitadas e admiradas pelos brasileiros, independente de crença ou religião, já anunciava que sua partida seria feita em meio a uma grande festa nacional, o que “abafaria” sua morte. Pois bem, Chico Xavier desencarnou no mesmo dia em que o Brasil foi campeão da Copa do Mundo, em 30 de junho de 2002.

Enquanto o mundo e, principalmente, os brasileiros estavam todos voltados para a comemoração do pentacampeonato da seleção brasileira de futebol, pouco se falou da morte do famoso médium, restando pequenas notas nos principais veículos de comunicação. Será que ele não merecia verdadeira comoção nacional? Será que os brasileiros não sentiram a morte daquele também considerado herói? Será que ele chegou a ser um herói?

12 de agosto de 2015

Há poesia em tudo que vejo



Cheiro de mato, pés descalços na areia, vento no rosto, nascer do sol no alto da montanha, som das ondas batendo...

O que lhe faz feliz?

O bem estar às vezes pode depender apenas de uma caminhada a beira mar, ou de um passeio em meio à natureza. Não requer bens materiais, basicamente. O conforto é relativo, se pensar que apenas o dinheiro é capaz de garantir isso.

Contemplar um lugar bonito é um tipo de conforto. Conforta a alma, traz paz, é prazeroso. Quantas vezes, quando viajamos, deparamos com lugares fantásticos, mas que nem sempre são tão turísticos ou populares assim. Veja a imagem ao lado, por exemplo. Não dá para identificar de cara qual lugar corresponde cada foto. Para falar a verdade, não importa onde seja. Em cada uma dessas fotos, é possível viajar no tempo, como se fosse uma poesia em forma de imagens. O que significa uma capela com um arco íris ao fundo? E uma simples bicicleta amarela encostada numa árvore? Ou ainda um piano no meio do mato, tendo uma bela praia ao fundo? Isso lhe diz alguma coisa? Para mim, há muitos significados subliminares.

“É a promessa de vida no seu coração”. Águas de março é uma contemplação dessa mistura da natureza com a presença do homem. Uma percepção aguçada de Tom e Vinícius para aquilo que passaria despercebido pela maioria. E quantas vezes passamos por ruas, praças, bosques, praias em nossas próprias cidades sem dar conta de quanto isso pode ser prazeroso?

Parar para ver, ouvir, sentir. Mais que isso, ir até um lugar novo, desconhecido, nem sempre de acesso fácil, ou próximo de casa, mas que guarda algo diferente. Justamente sair do comum, da futilidade rotineira, da zona de conforto. É o que me faz enxergar um piano no meio da estrada, um arco íris atrás de uma singela capela, uma bicicleta colorida no bosque. Simples e profundo.

9 de agosto de 2015

Nascer do Sol na Pedra Bonita


Há um ano, escrevi um post contando da minha experiência ao subir de madrugada a trilha da Pedra Bonita para ver o nascer do sol. Naquela época, realmente pouquíssimos aventureiros tinham coragem de subir no escuro a trilha, o que me deixou apreensivo por vários motivos (um deles a violência urbana infelizmente comum em nossa cidade). No meu grupo, eu fui o primeiro a chegar, o que me fez aguardar sozinho lá no estacionamento.

Pois bem, nesse último sábado repeti a aventura e voltei no mesmo lugar às cinco da manhã. Para minha surpresa, o estacionamento estava quase lotado e não parava de chegar gente. Depois de subir a trilha, encontrei uma galera já devidamente posicionada esperando o grande momento.



Definitivamente acordar ainda de madrugada, encarar a escuridão e o frio para assistir lá do alto do morro o nascer do sol virou um programa carioca, tornando-se moda. Aliás, passeios de trilhas pela cidade estão cada vez mais populares, não só entre os cariocas, mas também os visitantes que buscam uma programação alternativa aos passeios turísticos comuns.



E desta vez, ao contrário da primeira experiência, o tempo ajudou e o sol veio sem nuvens, proporcionando um espetáculo natural incrível. Ver a cidade ainda escura, com as luzes acessas das casas e das ruas, já é um cenário maravilhoso. Conforme o dia vai surgindo, a coloração avermelhada vem predominando e transformando aos poucos o cenário. O aparecimento do sol por trás da montanha é o clímax, quando todos ficam anestesiados, praticamente sem piscar para não perder nenhum segundo. O resultado é um nascer do dia abençoado, que vale qualquer sacrifício.

Consegui montar o time lapse com as imagens que fiz durante o nascer do sol.