10 de dezembro de 2015

Dupla em sintonia: Caetano & Gil




Assistir a um show de Caetano Veloso é um privilégio. Assistir a um show de Gilberto Gil, outro privilégio. E quando reúne essa dupla num show intimista, sem banda, só vozes e violões (e batuques de improviso)? Daí você percebe que poucos shows são tão marcantes quanto esse.

Depois de passar por uma longa turnê pela Europa, passando também por Israel, a dupla apresentou no Brasil o show “Caetano & Gil – Dois Amigos, um Século de Música”. De fato, o título não poderia ter sido outro, porque o que ganha nesse show é justamente a cumplicidade e sintonia que esses dois amigos têm em palco. Cada um brilhando no seu tempo e ambos brilhando juntos. Foi bárbaro.

Um repertório eclético, passando por clássicos nacionais, como “É luxo Só” de Ary Barroso, e internacionais, como “Tres palavras”. Mas sem faltar sucessos “Coração Vagabundo”, “Tropicália”, “Terra”, “Sampa”, “Drão”, ‘Expresso 222”, “Andar com Fé”, “Domingo no Parque”, “Leãozinho”, “Filhos de Gandhi”, fechando com “Aquele Abraço”.

O show foi no Circo Voador, o que tornou algo mais popular, intimista e caloroso, com uma plateia carente de boa música brasileira. Pessoas disputavam cada centímetro de um circo que ficou pequeno (claro, com ingresso esgotado em poucas horas), mas todos empolgados a cada refrão conhecido. E na música “Eu odeio você”, o coro foi direto, repetindo logo depois do refrão “Eu odeio você, Cunha”. Caetano gostou tanto que acabou postando no seu perfil o vídeo gravado no último show de domingo.

A sensação que tenho é que nossa geração é carente de artistas como Caetano, Gil, Chico, Djavan, Milton, Gonzaguinha, Vinícius, Tom. Talentos que, infelizmente, não encontramos nas novas gerações. Talvez seja por isso que esses artistas conseguem passar por tantas gerações fazendo sucesso.  

3 de dezembro de 2015

2015, o ano da mudança



Todo mundo já falou sobre a crise econômica, que tomou o país e transformou muitas vidas, na maioria das vezes para pior. Quantos em nossos ciclos sociais conheceram alguém que perdeu o emprego, por exemplo? Eu mesmo sofri com a crise. Eu e mais dez companheiros de uma mesma equipe, que fomos “pegos de surpresa”, quando a estabilidade deu lugar a incerteza.

Por um lado, o desespero de perder o emprego e ficar à deriva num mercado que já agonizava por conta da crise. Por outro, sair da zona de conforto, perceber novas oportunidades e encarar o desafio de correr atrás de um emprego novo.

O balanço que faço de 2015 é justamente sobre isso. O fim da zona de conforto, depois de tantos anos trabalhando numa mesma empresa, com as mesmas pessoas, fazendo as mesmas tarefas quase todos os dias. “Tudo dia ela faz tudo sempre igual”. O cotidiano lhe faz esquecer das muitas possibilidades de experimentar algo novo. Simplesmente entender que suas competências e talentos podem ser aproveitados para outras atuações.

A maré de oportunidades, infelizmente, não foi para todos. Mas se posso tirar alguma conclusão do que aconteceu esse ano é que podemos sempre nos reinventar. Somos capazes de descobrir competências até então desconhecidas. E até mesmo perceber como o próximo lhe enxerga muda seu modo de ser. Sua postura, seu jeito de expor suas ideias, seu comportamento, seu approach. Somos testados a todo momento, até quando não damos conta disso. Tudo é avaliado, até sua simpatia, mesmo quando isso não seja fundamental como competência profissional.

Aprendi, portanto, que otimismo, fé e força de vontade podem ajudar nessa transformação. Mas além disso, que acreditar no seu potencial, na flexibilidade de ampliar seu olhar para novas experiências, tudo isso faz obter bons resultados, no final das contas. Pode demorar, e essa demora muitas vezes nos faz insatisfeitos, infelizes, desolados. Ninguém gosta de esperar.

Mas quando o retorno vem, de forma positiva, a satisfação vem com gosto de vitória! Valeu a pena ser otimista! Bons pensamentos geram bons frutos. Boas ações geram bons frutos.

2015 pode ter sido um ano esquisito, em princípio, com mudanças bruscas, pesadas e com rupturas. Mas também serviu para enxergar além. Sair da caverna e ver a luz lá fora. Dá medo? Claro! Qual mudança não gera medo? Ao mesmo tempo dá força, um entusiasmo, uma energia renovada para criar, ser diferente, experimentar, até dar certo de novo e você voltar para velha zona de conforto. Fecha-se o ciclo.


3 de novembro de 2015

Dois Irmãos – a trilha dos cariocas




Já virou rotina dos cariocas buscar uma trilha bacana para conhecer uma vista diferente da cidade que não cansa de surpreender. Depois de Pedra Bonita, Pedra da Tartaruga, Pedra do Telégrafo, Morro da Urca, Morro da Catacumba, chegou a hora de conhecer uma das trilhas mais badaladas da cidade: Morro Dois Irmãos.

Essa trilha está cada vez mais disputada, principalmente depois que a Comunidade do Vidigal se tornou pacificada. O Morro Dois Irmãos é famoso para quem olha a cidade na direção do Leblon. Chegar ao topo do morro mais alto é enxergar o lado privilegiado da cidade que reúne o morro do Corcovado, o Pão de Açúcar, a Lagoa Rodrigo de Freitas (justamente de frente para o “coração” que se forma), as praias desde o Leme, passando por Copa, Arpoador, Ipanema e Leblon, não esquecendo da Gávea (observando o planetário).


Demorei algum tempo para conseguir fazer a trilha. O primeiro motivo, infelizmente, foi a questão da segurança. Mas depois que a comunidade foi pacificada, muitos turistas passaram a frequentar Vidigal, principalmente por conta da vida noturna. Confesso que fiquei surpreso com tanta gente no topo do morro, inclusive famílias com crianças de colo. O espaço no topo não é tão extenso, o que deixa o lugar bem disputado.


Não é difícil achar o início da trilha. Antes de mais nada, é preciso subir até a Vila Olímpica da Comunidade, o que pode ser feito por transporte local (Kombi ou moto táxi). Na Vila Olímpica, cercada por grade, há uma placa, onde informa o horário de funcionamento (sábado, domingo e feriado: 8h às 18h). Para acessar a trilha, é preciso entrar na vila, portanto, vale a pena ficar ligado nesse horário. O início da trilha é justamente atrás da vila, com um caminho tranquilo e de fácil acesso. Há outra opção de trilha, que não começa pela vila, mas desconheço.

No início da trilha, há uma placa com horário de funcionamento

O nível da trilha é considerado médio. Não é necessário escalar, mas há trechos onde a subida é íngreme e exige um mínimo condicionamento físico. Meu grupo levou em torno de 50 minutos na subida e 30 para descer, com ritmo moderado. Vale levar água e protetor solar. Sempre bom recomendar um calçado apropriado, de preferência tênis, porque há trechos que escorregam, por conta da terra.

Ao longo do percurso, é possível apreciar a vista voltada para São Conrado, com Pedra da Gávea e a Pedra Bonita ao fundo. No primeiro mirante, inclusive, há uma barraca estratégica para quem esqueceu de levar bebida e comida (mas lembrando que não há lixeira na trilha, portanto, importante voltar com o lixo).


Para quem curte passeios que integram beleza natural, visual, atividade física, essa trilha é uma excelente opção tanto aos cariocas quanto aos turistas que querem conhecer muito além do Cristo e Bondinho. E o Rio está sempre surpreendendo, mesmo para quem nasceu e vive nessa cidade.

30 de outubro de 2015

O improviso

Quantas vezes você precisou improvisar na vida?

Às vezes, mal damos conta de quantos somos capazes de improvisar no dia a dia. Das pequenas coisas até as mais complexas.

Improvisamos um lanche, aproveitando o que restou na geladeira de casa. Improvisamos a roupa para um evento de última hora. Improvisamos uma resposta a um convite inesperado. Improvisamos um trabalho quando o prazo está apertado. Improvisamos uma desculpa, quando somos pegos numa mentira. Improvisamos um assunto qualquer, para quebrar o gelo na conversa com um desconhecido. Improvisamos um presente, quando esquecemos o aniversário de alguém importante. Improvisamos um roteiro, quando a viagem não saiu como planejamos. Improvisamos na comunicação, quando não falamos a mesma língua. Improvisamos nas competências, quando somos desafiados profissionalmente. Improvisamos principalmente quando o dinheiro acaba muito antes do final do mês.

Somos testados em todos os sentidos. E mesmo quando nos preparamos para uma certa situação, seja uma entrevista de emprego, seja para uma apresentação de trabalho, seja para uma longa viagem, sempre somos surpreendidos. Ter jogo de cintura, raciocínio rápido, poder de decisão, ser flexível são qualidades que desenvolvemos ou não.

Lembro-me de um exercício muito comum, para quem já fez aula de teatro, que é improvisar a partir de temas que são lançados, durante a interpretação. Um deles, por exemplo, colocava uma ideia polêmica, em que um defendia, enquanto o outro atacava. Logo depois, mudava-se, então, o que defendia passava atacar e vice-versa. Uma verdadeira confusão mental, mas um desafio e tanto.

Particularmente, aprendo todos os dias a arte do improviso. É sempre bom planejar, organizar, estudar, roteirizar, esquematizar, calcular e todos os verbos de controle possíveis. Mas é justamente quando o planejado não dá resultado, quando tudo que você imaginou dá errado, é que você aprende na marra. O tempo entre a frustração (pelo que não deu certo) e a tomada de decisão para virar o jogo às vezes é tão curto, que quando se percebe, você já improvisou e já deu certo no final.

Viver de improviso não é o ideal. Mas se faz necessário, pelo menos enquanto não há outra saída. É a velha história: "se você tem um limão, faça disso uma boa limonada". O palhaço pode ter a piada pronta, mas se a criança não rir, alguma coisa estava errada, e só lhe resta... improvisar. Até fazer a criança rir.

Quantas vezes você não foi o palhaço e seu chefe a criança?





 

27 de outubro de 2015

Trilha do Morro da Urca




Para quem visita o Rio de Janeiro, é praticamente obrigatório conhecer o famoso Pão de Açúcar, um dos principais pontos turísticos da cidade. Hoje, o bondinho completa 103 anos, tendo passado por algumas modernizações ao longo desse período. Hoje o bondinho tem capacidade para transportar até 65 pessoas de uma única vez, mas para quem conheceu o primeiro bondinho, feito de madeira, imagina o quanto eram corajosos os que subiam até o topo.


Mas que tal conhecer o lugar sem precisar subir de bondinho? Além de ser um passeio gratuito, o visitante tem a oportunidade de conhecer uma das trilhas mais legais que o Rio oferece.
Considerada leve (para quem já pratica essa atividade), a trilha do Morro da Urca começa na Pista Claudio Coutinho, que fica no canto esquerdo da Praia Vermelha. Há sinalização tanto para acessar a pista, quanto no início da trilha. Apesar de fácil, vale lembrar que há trechos íngremes, mas não exige qualquer tipo de equipamentos de escaladas. Uma caminhada tranquila de 30 a 40 minutos, e o visitante já tem a oportunidade de chegar ao alto do Morro da Urca.


Antigamente, quem subia pela trilha tinha o direito de descer o bondinho até a estação na Urca, depois das 19h. Mas agora isso só é permitido durante a semana, sem ser feriado. Portanto, programa-se para descer a trilha antes do acesso ser fechado (a pista Claudio Coutinho funciona até as 18h). Outro detalhe que não há vendas de bilhetes lá em cima, portanto, mesmo se quiser comprar depois não há chance!

Mas o que vale nesse passeio é justamente o prazer de fazer a trilha, tento a oportunidade de parar em alguns trechos para apreciar a vista, durante a caminhada.

22 de setembro de 2015

Que horas ela volta? O Filme



Tratar a desigualdade social de forma tão familiar, próxima à realidade da classe média, pode impressionar mais que as cenas que enxergamos todos os dias nas ruas das cidades. Por que? Talvez porque serve muitas vezes de espelho, para aquilo que presenciamos se não em nossa própria casa, pelo menos na casa de alguém conhecido. 

A história contada no filme “Que horas ela volta?”, que traz uma excelente interpretação de Regina Casé no papel de Val, é a velha relação de patrão e empregada. Na verdade, são muitas histórias dentro de uma. Ali é possível ver a real relação de uma dondoca patroa que acredita ser uma excelente empregadora, um filho adolescente que demonstra seu afeto àquela que de fato o criou e educou, e o patrão que revela suas paixões e deslizes diante da filha da empregada. Além, é claro, a relação da empregada com aquela família que a recebeu e por quem tem grande respeito.

A rotina muda com a chegada da filha da Val à cidade de São Paulo, depois de 13 anos longe da mãe. A filha não entende aquela relação entre patrão e empregada, o que torna o filme ainda mais interessante. “Ela é praticamente da família, está conosco há tantos anos”, mas é justamente esse “praticamente” que faz toda a diferença. No final das contas, o que vale é a máxima “cada macaco no seu galho”. Ou seja, “se o patrão lhe oferecer aquele melhor sorvete da geladeira, é apenas por educação, porque ele tem a certeza que você dirá não”. Existe um protocolo velado.

E nessa relação, a desigualdade é escamoteada nas pequenas atitudes, nas cobranças, no olhar de reprovação, no descaso e até na inveja quando a filha da empregada passa no vestibular para uma universidade pública e o filho da patroa, que teve todas as oportunidades possíveis, nem chegou perto da classificação.

É um filme engraçado, leve, cheia de tiradas inteligentes, mas vale mesmo pela reflexão. Se por um lado, as empregadas domésticas vêm conquistando seus direitos nas leis trabalhistas, por outro, falta respeito e verdadeiro reconhecimento por parte dos patrões. De fato, há ótimas histórias com finais felizes, mas há também muitos conflitos nesses relacionamentos.